Cair no ridículo acontece a qualquer um. Por exemplo: um secretário de Estado das Florestas, apostado na salvaguarda da segurança florestal, acerca-se dos microfones e diz: “A questão silvo-pastoril é essencial, por isso vamos fazer projectos-piloto este ano de chamadas ‘cabras sapadoras'”.

A ideia não é má nem é nova: trata-se da reposição da ancestral prática pastoril, que consistia em os rebanhos vaguearem nas encostas serranas, ou as planuras louçãs, apascentando-se dos rebentos que brotavam do solo. Rebentos que, assim cerceados, não chegavam a atingir dimensão susceptível de incêndio. Mas não esqueçamos o essencial: nesses tempos ancestrais não havia, nessas encostas (e planuras louçãs, donde creio que deriva o topónimo Lousã), não havia eucaliptos nem sequer pinheiros; ainda assim, a proposta do secretário de Estado não estaria errada em promover o regresso dos rebanhos (faltando-lhe, imagino, a coragem de implementação de uma simultânea política de erradicação de eucaliptos e pinheiros, isso sim, uma política verdadeiramente eficaz).

Porém, a um secretário de Estado (ou, vá lá, aos seus assessores…) se a gente lhe perdoa a falta de coragem para renegar eucaliptos e pinheiros da nossa paisagem (eucaliptos, porque se apoderaram de uma parcela decisiva da nossa balança de exportações; e pinheiros, porque já poucos são os portugueses que acalentam o conhecimento de que também eles são espécies invasivas) – se a gente lhes perdoa isso, não lhes poderemos perdoar a ignorância de chamarem “cabras sapadoras” aos rebanhos que dizem apadrinhar. Consultados vários dicionários de língua portuguesa acerca do significado do vocábulo “sapador”, citamos aquele que nos parece melhor sintetizar todos os outros: “Soldado de engenharia ou qualquer indivíduo encarregado de trabalhos de sapa”.

Percebo a intenção do secretário de Estado, não sei se intenção genuína ou simplesmente política, mas, desculpe que lhe diga, preferia que o senhor acreditasse nessa solução (ou parcela de solução) como coisa intrínseca, constituinte da nossa identidade antropológica, portanto isenta desse sentido de ‘sapa’.

Desculpe lá, homem, se lhe estou a pedir muito! Porrra!