José Oliveira

É em português que melhor nos entendemos. Ou não? Por vezes tenho dúvidas, aliás cada vez mais frequentes, como foi o caso da passada segunda-feira, ao ouvir uma repórter da RTP afirmar, acerca de uma entrevista que Xavier Viegas lhe proporcionou versando as tragédias dos incêndios do último verão, que “as pessoas não sabem o que é que hádem fazer”. Assim mesmo: “hádem”. Pronunciado em vez de “hão-de”, como me ensinou o meu professor da terceira classe da escola primária.

No final da semana passada, aquando da emissão do prestigiado programa “Sexta as Nove” também da RTP, ouvi uma repórter comentar (lendo texto em ‘off’, portanto com muito menos desculpa para descuido) – e aludindo a uma situação complexa de especulação com gado cavalar – que os animais da situação reportada não eram ‘desparatizados’. Não sendo, contudo, a primeira vez com que me deparo com este ‘desparate’ pela via televisiva. E aqui chegado, o meu apelo vai dirigido direitinho aos responsáveis da TV oficial portuguesa: ‘desparatizem’ a repórter! A ver se ela fica desinfectada destes ‘desparates’!

Há tempos, durante o noticiário de outra TV, fui surpreendido por uma informação em rodapé que divulgava problemas no funcionamento de um infantário, que redundaram no encerramento da… ‘cresce’, numa manifesta confusão entre ‘creche’, derivada de ‘crèche’, advinda do francês antigo e significando “presépio, manjedoura, berço”, e o verbo crescer, com que, do ponto de vista vocabular, nada tem a ver.

Subscrevo Pessoa: “A minha pátria é a língua portuguesa”. Por isso, de cada vez que me deparo com estes atropelos à nossa bandeira de comunicação, recordo aquele deplorável episódio em que o presidente Cavaco, em Dia de Portugal, ergueu no mastro o pavilhão nacional içado de pernas para o ar. Mas a ele, que chegou a declarar-se político não-profissional, até perdoo, por inimputabilidade. Mas como desculpar uma(s) jornalista(s), profissional(is), licenciada(s), recrutada(s) pela RTP, subordinada(s) a um editor?