Temia-se o pior e foi isso mesmo que aconteceu. Bolsonaro venceu confortavelmente as eleições no Brasil. Não serviu de nada a memória, ainda fresca, dos tempos em que a ditadura governava aquele país, nem tão-pouco as suas declarações inflamadamente racistas, xenófobas ou homofóbicas.

Choveram teorias sobre os porquês da ascensão fulgurante que colocou Bolsonaro a dirigir a pátria do samba, mas, na verdade, o futuro chefe de Estado não está só. Olhemos para a nossa União Europeia, a suposta vanguarda de valores que nos deveriam nortear: a Liberdade e a Tolerância. Basta recordar o modo como o anterior governo espanhol lidou desastrosamente com a questão catalã ou como a senhora Le Pen aglutinou tantos apoiantes nas últimas eleições. Em Itália, aquele que foi o berço do Fascismo, floresce um governo sob o comando de Salvini, um político saído da extrema direita. Até a Áustria e a Alemanha alinharam no clube desta onda populista.

Na Polónia e na Hungria atropelam-se liberdades fundamentais em prol de um nacionalismo insuflado, de pressupostos religiosos que não deveriam interferir num Estado laico.

Nos arrabaldes do “velho continente”, a Rússia e a Turquia são outro exemplo de autoritarismo, da não separação de poderes e da viciação do jogo democrático. Verificaram-se aqui inúmeros episódios de jornais que viram as suas portas ser fechadas apenas por não se vergarem perante os interesses de Erdogan, o novo sultão daquele que foi outrora o império Otomano. Não vou, sequer, abordar o caso chinês, falar de Donald Trump ou de Nicolás Maduro. São tempos em que se vive no limbo, a toque de caixa da “lei do pau e da cenoura”. Quem paga a fatura são os (e)leitores ou a própria Democracia.

E Portugal? Estaremos imunes a esta epidemia política só porque não temos problemas com refugiados como acontece com os nossos vizinhos da Europa? Ou será porque o nosso espectro partidário não cede assentos no Parlamento a novas formações de cariz populista? Ou será o resultado de, uma vez por ano, andarmos orgulhosamente de cravo ao peito gritando “25 de Abril sempre, fascismo nunca mais!”? É provável que estas premissas sejam mais do que suficientes para concluirmos que, nesse âmbito, podemos estar descansados.

Contudo, Portugal continua a ser o país “dos pequenos poderes”, uma nação, por vezes, minada por gente medíocre, de espírito fraco e ditatorial, que tenta tomar de assalto diversas instituições, sejam elas de cariz político, económico ou mesmo cultural. Julgando-se donos e senhores, quase ao estilo feudal, com os seus súbditos a fazerem prova de vassalagem, ou a alimentarem vícios que se perpetuarão no tempo, tentam dirigir e pôr de parte aqueles que não afinam pelo mesmo acorde. A usurpação do poder, perante a passividade ou cumplicidade de quem está à volta, é um tique ditatorial que não deveria merecer qualquer tipo de acolhimento.

“Se queres conhecer alguém, dá-lhe poder”, ensina-nos o dito popular. Se tal fosse permitido, muita gente facilmente “sairia do armário” e soltaria o Bolsonaro que há dentro de si. Ao contrário dos brasileiros, não deixemos que a nossa memória seja curta, pois quem não ouve a História, está condenado a repeti-la.