O recepcionista do hostel era um rapaz franzino, com acne que ainda não se desvanecera da sua face ainda meio imberbe. Teria de o convencer a deixar-me ali dormir. Não seria, à partida, tarefa fácil, mas não tinha mesmo outra hipótese pois não tinha outro sítio onde ficar, além de que estava cansado, esfomeado e só queria mesmo deitar-me numa cama ou num chão e assim dormir debaixo de um teto. Era necessário fazê-lo quebrar regras, algo que não é fácil num país como a China.

Expliquei que a reserva fora feita no “Booking” e que, nessa plataforma, não havia qualquer indicação relativa a esse impedimento. Na ausência da reação que pretendia, fui muito peremptório ao fazer sinal de que ia dormir ali mesmo e que, se quisessem impedir-me, teriam de me tirar dali para fora. Perante a minha determinação, teve de reconsiderar. Combinou-se que, para todos os efeitos, eu nunca teria ali estado, nem haveria recibo, apenas dinheiro por baixo da mesa, e eu pernoitaria de uma forma clandestina. Num segredo que seria só nosso, ninguém poderia saber disso, prometendo todos os hóspedes ali presentes que não diriam nada a ninguém. E de manhã, bem cedo, longe de olhares curiosos, eu abandonaria muito discretamente o local. Negócio fechado!

Para me matar a fome, um dos jovens pegou no seu telemóvel de última geração e pesquisou numa aplicação sobre comida “take away”, dando-me a escolher o que é que eu queria para jantar fora de horas. Não tardou muito a que chegasse um estafeta com uma embalagem bem quente.

À mesa estavam agora quatro jovens, dois estudantes do ensino superior, o recepcionista e a namorada. A curiosidade deles levou-os a colocarem-me várias questões sobre a Europa e o mundo ocidental. Falou-se de gastronomia, política, música e cinema e o modo de vida que se tem no meu país. Exausto, só queria mesmo fechar os olhos e descansar, mas tinha ali uma pequena plateia ávida do meu mundo, algo que lhes é tão desconhecido e, ao mesmo tempo, tão apetecido. Com o recurso à internet, excetuando os sites que, por lei estão inacessíveis ao comum utilizador, como o Google, o Youtube, Facebook ou mesmo o Whatsapp, partilhei com eles um pouco da minha cultura, fosse ela portuguesa, europeia ou mesmo ocidental, anotando também algumas sugestões “made in China”.

Os olhos avermelhados indicavam o meu estado, dando-me a desculpa necessária para me despedir de todos e me retirar para o tão dificilmente conquistado colchão. Lavaria os dentes com água de uma garrafa pois a estalagem não dispunha de água canalizada depois da meia noite. Na manhã seguinte, tudo seria muito rápido, desde episódios que não vale a pena contar, que se prendem com intestinos e falta de água na casa de banho, despedida a quem permitiu a minha estadia e o apanhar do autocarro nº111 para a estação do sul da cidade. Partia de Lanzhou, rumo a Xiahè sem ter a noção de que sairia daquilo que era para mim a China e entrar num mundo muito diferente, no que foi, e se espera que um dia volte a ser o Tibete.