Bruno Fernandes

A ideia de que os Óscares, prémios da Academia norte-americana de Cinema, recompensam a excelência absoluta é falsa. Podia dedicar esta coluna só a exemplificar pessoas que nunca ganharam este prémio uma única vez, e garanto-vos que estão num inquestionável panteão de excelência na Sétima Arte. Os Óscares são, acima de tudo, um espelho onde os membros desta Academia adoram reflectir-se, perguntando, afinal, qual é o nosso melhor eu. Podemos acompanhar a evolução da resposta a esta pergunta ao longo das décadas e ela atravessa as mudanças de gerações daqueles que votam nos Óscares. Nos últimos dez anos, uma velha guarda de homens brancos, votando com o coração em filmes de sentimento fácil em detrimento de arte, e reforçando a cada década a visão masculina e branca do mundo e da América – ainda que bem intencionada a espaços – tem saído de cena e sido substituída na Academia por profissionais do cinema mais jovens e de proveniências étnicas mais diversas. Se olharmos para as nomeações dos Óscares deste ano, a mudança é notória.

Há filmes protagonizados por artistas gay, um triângulo amoroso de mulheres, um negro que se faz passar por membro do “Ku Klux Klan”, uma aventura de super-heróis desenrolada totalmente num fictício país africano ou uma obra a preto e branco totalmente protagonizada por mexicanos e falada em espanhol. E só vou na categoria de Melhor Filme. É certo que se pode argumentar que grande parte disto se deve a um certo tom de politicamente correcto que no ano passado celebrou um filme normal como “Ladybird” apenas e só porque era realizado por uma mulher e que tem criado uma pressão insuportável querendo associar diversidade a uma qualidade imediata de um filme. Bacoco, é certo; mas a mudança está a chegar e tão cedo não voltaremos ao passado. Sendo que os Óscares são, acima de tudo o mais, uma narrativa, a história a contar este ano é a seguinte: o mundo é um lugar diverso, onde há muitas histórias protagonizadas por gente com experiências diferentes das nossas, mas universais na sua humanidade; e nós, a gente das artes, vamos unir este mundo polarizado em redor desta fogueira que é o Cinema, todos de mão dada. Uma outra maneira de reflectir o complexo messiânico tão caro aos Estados Unidos.

É esta a história que irá desfilar até dia 24 de fevereiro, quando foram anunciados os vencedores. Prestem atenção aos vestidos, mas também às mensagens. Todos quererão estar com este movimento, mostrando apoio e abertura, levando ao mundo esta mensagem de diversidade, de que nós aceitamos toda a gente. Esqueçam méritos artísticos, se os procuram nos Óscares, e confortáveis nos vossos sofás, imaginem que assistem de poltrona a um filme. Até pode ser da Netflix, que este ano está muito bem representada. Esperarão por um twist que nunca chega e no final, o sabor será sempre o mesmo. São, afinal, os Óscares.