O autocarro partiu atrasado da estação de Lanzhou sul. Chineses, tibetanos e algumas faces ocidentais olham-se mutuamente ao longo de três horas e meia de caminho por entre encostas de um verde cada vez mais vivo. As silhuetas dos minaretes das mesquitas que vão surgindo timidamente no horizonte vão dando lugar às stupas budistas. As cores vão-se apoderando dos montes, com bandeiras de orações tibetanas, de cinco tonalidades diferentes. Seguindo um costume que remonta ao séc. XI, quando o mestre indiano Atisha (982-1054) ensinou aos seus discípulos como imprimir orações e mantras sobre pedaços de tecido, a partir de blocos de madeira gravados, cada cor simboliza um elemento, uma energia. O branco está associado ao éter, o azul à água, o verde ao ar, o vermelho ao fogo e o amarelo ao elemento terra. Segundo a crença budista tibetana, imprimir estes textos sagrados com uma boa intenção produz efeitos benéficos para todo o espaço envolvente, espalhando assim um campo positivo. Por outro lado, estas cores estão também associadas às cinco sabedorias desta religião. O azul é a sabedoria do Espelho, a que se associa o Acolhimento, enquanto que o amarelo, sabedoria da Igualdade, significa Generosidade. O vermelho prende-se com a sabedoria Discriminativa, a Investigação e o verde com a sabedoria da Causalidade, a Causa e Efeito. Por fim, o branco representa a Dármata, a capacidade de Transformação.

Depois de muitas curvas e contracurvas, chego a Xiahè, uma pequena cidade que orbita em torno do mosteiro de Labrang, um dos mais sagrados mosteiros tibetanos. Cai uma chuva miúda que teima em não parar e faz frio. Há que seguir caminho, tentando passar por entre pingos, debaixo de beirais ou com as mochilas a protegerem-me da intempérie. Não há tempo a perder nesta procura desenfreada por um Nirvana hotel que ninguém sabe onde fica. A chuva cai mais intensamente, as chinelas deslizam nuns pés encharcados que me fazem espirrar. Com muito custo, à enésima tentativa, alguém me indica o meu porto de abrigo nesta tempestade.

Fui recebido por Clary, a proprietária do espaço, uma holandesa que para aí viajou há mais de uma década, onde conheceu Wandhikhar, um tibetano nativo dessa cidade por quem se apaixonou e construiu este segundo projeto de vida. Tomo um chá enquanto troco dois dedos de conversa com esta mulher que foi adoptada por esta terra, pertencente a um mundo por um lado tão distante do seu mas, ao mesmo tempo, tão próximo pelo estilo de vida que este povo tem.

Já mais quente, e com o estômago aconchegado depois de comer frango e arroz branco, e com a mochila na cama onde teria o repouso merecido nessa noite, pego na câmara para ver, fotografar e testemunhar o misticismo do mosteiro de Labrang. Os vultos vermelhos que indicavam os monges tibetanos no meio da população são cada vez mais presentes. Abria agora os olhos com mais atenção e descobria-me no Tibete.