António Carvalho

As vitórias eleitorais de Trump, Bolsonaro e Duterte, assim como a disseminação do populismo na Europa, são marcadas por discursos que recorrem a linguagem racista, xenófoba, homofóbica e islamofóbica. Por outro lado, fenómenos virais – como o #MeToo, o #EleNão ou o Black Lives Matter – tiveram um papel importante na crítica à violência racial e de género que ainda subsiste nas sociedades contemporâneas, assumindo a linguagem enquanto um campo de batalha político.

Nos dias de hoje assistimos a uma crescente polarização que se manifesta em posições extremadas, por vezes irreconciliáveis, sobre temas como a migração ou a identidade de género. Se os media convencionais frequentemente se assumem como defensores de uma posição “liberal”, as caixas de comentários online dos principais jornais habitualmente fomentam um discurso inflamado e de ódio, que contrasta com o politicamente correto.

Ao mesmo tempo que se regista esta disparidade, as lutas políticas são progressivamente marcadas por questões identitárias, considerando-se que a posição do sujeito político – enquanto branco/negro, homo/hétero, homem/mulher, etc. –determina em parte o leque de reivindicações sociais a que os cidadãos podem ou devem aspirar. As aspirações por direitos identitários – e as designadas “causas fraturantes” – assumem uma grande visibilidade mediática, por vezes ofuscando mobilizações de teor “universalista” como o direito à saúde, ao trabalho digno e à educação.

Com a emergência dos novos media – em particular das redes sociais – a relação entre informação e identidade tornou-se mais complexa. Os utilizadores não são mais espetadores passivos de conteúdos fornecidos por terceiros – podem comentar, selecionar e configurar a informação em função dos seus interesses e aspirações, gerando um feed relativamente personalizado.

A informação já não é um mero espelho da realidade ou um reflexo da propaganda de grandes corporações e nações – transformou-se num exercício reflexivo que envolve a permanente intervenção dos sujeitos, que definem as suas identidades através da construção de um ambiente mediático. Nesse sentido, a crescente polarização a que assistimos em diferentes contextos geográficos é também o resultado de um choque entre mundos mediáticos.

Como previu Marshall McLuhan, a aldeia global e interconectada dos novos media também levou à emergência de novos tribalismos; de facto, as interações com membros de outras “tribos” são marcadas por uma linguagem belicista e avessa ao diálogo. Reconhecendo que as clivagens políticas são também conflitos mediáticos, é necessário desenvolver novas formas de reconhecimento mais focadas nas aspirações comuns dos sujeitos.

Nesse sentido, é urgente refletir acerca do papel dos media na promoção de formas de solidariedade e partilha, e da real possibilidade em inverter a tendência política e mediática atual perante a crescente monopolização dos meios de comunicação.