A alba do século XX traz também as lutas sufragistas que apelam à opinião pública para um direito cívico que não deveria excluir sexos. A Grande Guerra empurra muita mão de obra feminina para as fábricas para ocupar o lugar dos que foram enviados para a frente de batalha. Excederam as expetativas no seu contributo para o esforço de guerra e os governos teriam agora que reconhecer-lhes alguns direitos. A crise de valores que o mundo ocidental atravessou, nos escombros da guerra e do que se supunha ser a moralidade e o conservadorismo das classes burguesas, facilitou a sua emancipação. Os “loucos anos 20” desmistificaram o seu papel até aí dependente da figura masculina, dando-lhe também uma autonomia económica e social que até aí pouco usufruía.

Por cá, após a revolução republicana do 5 de Outubro, Carolina Beatriz Ângelo, médica, republicana e sufragista foi a primeira mulher a votar no nosso país, a 28 de maio de 1911, para as eleições da Assembleia Nacional Constituinte sob o argumento de que era maior de idade, sabia ler e escrever e era chefe de família pois era viúva. No sufrágio seguinte, uma emenda seria colocada na lei para impedir semelhante situação. Este direito só lhe seria consagrado muito mais tarde, em 1968, quando, já no governo de Marcello Caetano, se estendeu esse direito às mulheres maiores de idade que soubessem ler e escrever.

O salazarismo, no seu fascismo latente, relegava o sexo feminino para um plano de subserviência. Na década de 40, lia-se na revista “Menina e Moça”, a edição por excelência da Mocidade Portuguesa Feminina, que “a mulher ideal é aquela que compreende a doce sujeição que a mulher deve ao marido, conformo preceitua a Santa Madre Igreja”.

A década de 60 traz consigo uma onda de contestação, que culminou em Maio de 68 numa revolução que teve o seu epicentro nas ruas de Paris. Exigia-se também liberdade sexual numa altura em que a comercialização da pílula inaugura um admirável mundo novo na relação entre os dois sexos. O biquini começa a impor-se como uma peça de uso corrente e o feminismo atrai mais adeptas. O 25 de Abril rompeu com muitos tabus e permitiu outro modo de estar.

Na atualidade, as conquistas da mulher são uma realidade ainda não consumada. A legislação em vigor não ignora as questões de género no campo laboral e social, há uma maior proteção e concertação para a igualdade em pontos que são já tidos como centrais no mundo atual. Se, por um lado, já lá vão os tempos em que a Natália Correia se via obrigada a escrever o “Coito do Morgado”, por outro, apesar das conquistas levadas a cabo, dos vários movimentos que fazem tremer as opiniões públicas com denúncias de assédio, há que perceber que, também neste tema, não é o fim da História.

Haverá muitas mais lutas a travar e, mais importante, há uma consciência que tem de evoluir para que o flagelo da violência doméstica não seja a vergonha que aflige um país que tem falhas gritantes no sistema ou magistrados que são, em si, uma aberração do que é uma sociedade democrática no século XXI.