Bruno Fernandes

25 de Abril é sempre uma data para textos sobre uma multiplicidade de coisas. Propósitos pessoais, o estado de país, uma revisão da matéria dada no que aos ideais de Abril diz respeito. Mas permitam-me contornar todos esses hábitos e não erguer o meu punho ao som de José Mário Branco. Vou contar um episódio mais pessoal.

Fará três anos neste Verão que visitei um país da Ásia Central chamado Quirguistão. Se estão a perguntar-se sobre o que é, não se espantem. Recebi várias reações do género na altura. De uma ponta à outra, é um local onde a beleza parou e decidiu fazer casa, temperando isso com uma incrível aptidão para a hospitalidade e a navalha do risco controlado da vida. Um lugar estranho, mas fascinante. A sul, gravita no solo um lago chamado Song-Kol. Situa-se num planalto a três mil metros de altitude e nas suas margens, acampam, durante alguns meses, nómadas que dele retiram sustento e vida. Numa manhã nessa minha viagem, acordei bem cedo dentro de uma tenda de pano tradicional nas margens do lago. Um frio baço raspou a minha pele quando saí e em redor, cordilheiras de montanhas pálidas, cobertas de neve, dispunham-se debaixo do céu nebulado, cinzento e carregado. O solo, verdíssimo, era o recreio de uma manada de cavalos que placidamente pastava. Entre o momento em que presencio esta maravilha e puxo da minha máquina fotográfica, acontecem uns segundos e sentado, fixo tudo isto em imagens, memórias que mais tarde trarei para outros verem.

Ali, no centro de tudo o que há de belo neste mundo, sinto um desprendimento de quase tudo, uma aceitação de ser feliz, a emancipação das várias algemas que me apresam: sinto liberdade. Não política, não social, não a burocrática ou técnica: a simples liberdade de ser exatamente o que quero, de fazer o que gosto, o que é correto, o que me faz voar com pés no chão. A tal Liberdade maiúscula. É essa que se ganha em todas a lutas justas, aquelas que nos afirmam como seres humanos no respeito que temos uns pelos outros, na aceitação, na compreensão de que a espécie é mesma, mas os indivíduos são unos.

É nisto que penso quando falam do 25 de Abril. Não nos chaimites ou nos cravos, não nas encenações tribais de comemoração ou nas mãos que batem no peito: penso nas pessoas e na sua capacidade de serem elas próprias, da conquista dessa possibilidade, da vitória daquilo que cada um considera ser o seu reduto intocável onde se é sem que outros importunem. Que pode ser algo tão simples quanto uma manhã clara e límpida num lago lá longe. É a minha Liberdade; e viva a mesma.