Mais um ano, na roda da vida que não para, e estamos aqui reunidos, fraternalmente e em nome da boa vizinhança, esta marcada aqui e ali, ao longo dos séculos, por juras de amor eterno, pequenas e grandes desavenças, tantas vezes dirimidas pelas partes, sem intervenção de juízes locais ou de fora, em redor da capela do doutor Santo António e à volta de um farnel saboroso bem regado.

Era muitas vezes assim, outrora, na romaria ao Santo António da Neve: vinho na cabaça, mas muito mais na cabeça!

Nos casos mais difíceis, poderia haver ainda uma espécie de tribunal de apelação, que lavraria a sentença num ritualizado jogo do pau, o mesmo é dizer com bordoada da grossa em fim de festa, que calhava sempre a 13 de junho, dia do advogado do gado, então numa sociedade essencialmente camponesa, que tinha a vida organizada em função dos ciclos agrários e do calendário religioso.

Sem prejuízo da festividade anual em honra de santo casamenteiro, lançámos o Encontro dos Povos da Serra da Lousã, em 1997, congregando de forma um pouco diferente as populações dos três municípios cujos limites algures aqui se cruzam, Lousã, Castanheira de Pera e Góis, mas também de Miranda do Corvo, Pedrógão Grande, Figueiró dos Vinhos e outras terras vizinhas que a nós se quisessem juntar.

Somos homens e mulheres de uma corda de localidades que partilham, desde tempos remotos, a sua ligação à “montanha tutelar” das nossas infâncias, cantada pelo poeta Eugénio Sanches da Gama, que morreu em 1933.

Seu pai, José Augusto Sanches da Gama, natural da Lousã, foi lente da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, curiosamente um especialista no regime de águas do Código Civil, matéria com que o professor matava a cabeça e que terá originado também tanta cabeça rachada nas rixas deste arraial!

Nalguns casos, os nossos concelhos são mais antigos do que a própria nacionalidade.

Somos montanheses, na têmpera herdeiros do guerreiro Viriato, esse lendário pastor que, há mais de 2.000 anos, enfrentou as poderosas hordas do invasor romano.

Sem interrupções, chegamos hoje à 23º edição do Encontro dos Povos da Serra da Lousã.

Mais uma corrida, mais uma viagem, por estradas vergonhosamente abandonadas, há longos anos, pelos poderes públicos que as deviam cuidar.

Aqui chegados, ao antigo Cabeço do Pereiro, onde a serra acaba e o céu começa, diria Camões, aproveitamos a confraternização para prestar justo tributo a Luís Maria Kalidás da Costa Barreto.

Há no ar um aroma a urze e a macela.

Da longínqua Goa, onde nasceu o intelectual republicano Adeodato Barreto, pai de Kalidás, chega também um leve perfume a pimenta, canela e açafrão-das-Índias.

Na viagem que juntos prosseguimos, ventos nem sempre de feição sacodem as almas aflitas nos velhos carvalhais, depois substituídos por pinhais e que agora são uma tragédia chamada eucaliptal.

Mas não vamos desistir de um mundo mais fraterno e de uma Serra da Lousã mais acolhedora e mais verdejante!

Vislumbramos ainda, no horizonte, uma ténue luz de humanidade.

Agarremos essa chama redentora, essa toiça da carqueja que nos vale quando arriscamos resvalar no abismo.

Apesar das contrariedades, assustadoras como a foice rubra que tem ceifado a seiva promissora da Serra da Lousã e dos nossos, tenhamos coragem e inteligência.

Honremos a milenar passagem do testemunho progressista, protegendo os mais fracos, e escorracemos as tentações do pensamento único, do medo e da censura.

Dirijo estas palavras ao amigo Kalidás, ousando esperar que elas possam traduzir, pelo menos em parte, o seu exemplo de homem íntegro e a obra pública que nos doa há 86 anos, erguendo pedra sobre pedra, como quem constrói o tempo dos homens livres, o templo comum dos que sabem sonhar.

Trago-lhe um renovado abraço, mas também um singelo ramo de urze.

A flor lilás da torga resistente, que, no quadro do pintor Carlos Reis alusivo à fundação da Lousã, faz resplandecer em tons de fogo a bela paisagem que une os povos em torno do altar do Trevim.

Neste Encontro dos Povos da Serra, alegremo-nos, prestando tributo a Kalidás Barreto.

Afinemos as vozes e as concertinas.

Casimiro Simões

(*) Texto lido no tributo a Kalidás Barreto, antigo colaborador do Trevim, durante o 23º Encontro dos Povos da Serra da Lousã