A noite já caiu. O autocarro continua a sua marcha, e estou em parte incerta. Não se notam sinais de vida fora da estrada, numa clara contradição com a agitação frenética na via. Detemo-nos numa fila interminável causada por mais um acidente e não há maneira de se sair daquele pântano de viaturas. O pragmatismo chinês levou o motorista a fazer o impensável: Numa autoestrada de duas faixas de cada lado, o nosso transporte sai da via transitável e continua o seu percurso na estreita berma junto aos rails de proteção, ultrapassando pela direita todos os outros veículos que estavam imobilizados, numa infração que se estendeu por mais de uma ou duas centenas de quilómetros. Onde um ocidental vê duas faixas de rodagem, o chinês normalmente usa três.
As constantes filas que obrigavam a um desgastante pára-arranca com prolongadas esperas pelo meio é resultado da alta taxa de sinistralidade nas suas estradas. São bem visíveis vários painéis com imagens do que resta de gente atropelada ao tentar atravessar a autoestrada. Mesmo com esta terapia de choque, a imprudência continua a verificar-se com regularidade. O gesto repetiu-se indefinidamente: Mais um congestionamento, mais uma paragem. O ruído das buzinas é omnipresente em toda a extensão do percurso. Desliga-se o motor do autocarro, os passageiros, resignados com a banalidade da situação, saem para apanhar ar ou para fumar um cigarro, olhando sempre para o horizonte à espera do ansiado momento em que os veículos que estão à frente reiniciem a sua marcha.
Avanços, paragens, esperas, mais uma ou outra conversa e quando se dá por ela já o dia está a raiar. Pouco passava das seis e meia da manhã quando finalmente chego a Hohhot, sete horas depois do que era suposto. O mongol fez mais uns telefonemas e apanhámos um táxi que nos deixou à porta do hotel. Agradeci a ajuda, despedimo-nos e aproveitei para repousar o corpo num beliche que, para quem tinha passado a noite inteira aos solavancos num autocarro, soava a suite presidencial. Duas horas depois, já estava de pé e a iniciar a caminhada pela cidade.
O título de capital da Mongólia Interior faz-se aqui sentir, procurando a cidade desvincular-se dos restantes centros urbanos. São evidentes as marcas da cultura mongol, seja na arquitectura, como nos elementos decorativos do próprio centro ou mesmo na gastronomia. E então, se juntando a tudo isto, observarmos com atenção a fisionomia das pessoas, concluímos que este território não é bem a China. A minha passagem causa algum espanto aos habitantes. Seguindo-me atentamente com o olhar, cumprimentam-me, sempre com um sorriso genuíno, humilde e amistoso. Os casos multiplicam-se, e vou-me apercebendo com o tempo de que era o único viajante que estava naquela cidade. Causava espanto por andar pelas ruas de uma terra que não estava habituada a gente que viesse de fora, sobretudo de países ocidentais, de cabelo claro o olhos de cor azul. Nos três dias seguintes, eu era "o estrangeiro" a quem muitos pediam para fazer uma foto ao lado, como se de um extraterrestre se tratasse. Saído do caos da capital era agora um estranho numa terra estranha.
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