loader

Incêndios de Pedrógão Grande levam a “recomeço do zero”

A tragédia que teve início em Pedrogão Grande é uma oportunidade para começar do zero e repensar a floresta em Portugal. Neste processo, todos os cidadãos, desde o proprietário aos governantes, têm responsabilidades, sendo necessária a união de esforços para que uma nova forma de repensar a floresta tenha sucesso. Estas foram as principais conclusões do debate que reuniu especialistas sobre o tema, no XXI Encontro de Povos da Serra da Lousã, no Santo António da Neve e que, este ano, foi especialmente concentrado na necessidade de discutir a vida na montanha multimunicipal.
O debate “Serra da Lousã – Repensar e agir!” contou com os oradores Carlos Fonseca, Armando Carvalho, Aires Henriques, José Pais e Rita Serra.
José Pais, administrador da Praia das Rocas, defendeu que é necessário “demonstrar resultados e dar valor acrescentado” à floresta nacional, frisando que “há muito por fazer” nesta área. “Compete-nos a todos fazer melhor nos diferentes papéis. Seja como autarcas, cidadãos ou engenheiros florestais. O que aconteceu leva-nos a pensar que devíamos fazer muito melhor”. Para José Pais, a “solução não está em limpar a mata de seis em seis meses”, havendo “soluções mais seguras em termos de prevenção”. “Por exemplo plantar castanheiros. Além de terem muito mais valor económico”, acrescentou. Já o investigador e promotor turístico, Aires Henriques, afirmou que é na “prevenção e no combate que vai estar a grande decisão”, lembrando que as zonas de cultura começaram a desaparecer nos anos 60 e que falar disso é “um mito”. “É sobre os problemas florestais que temos que pensar. As propriedades florestais são, em média, muito pequenas e a idade dos proprietários é, em média, superior a 70 anos, sem condições monetárias. Seria importante que esta fosse uma área piloto. Nunca se aplicou corretamente o ordenamento e o planeamento. Nunca se conseguiu fazer o emparcelamento e isso era muito importante”, disse, ainda.

“Oportunidade” para começar do zero

Armando Carvalho, engenheiro florestal, lembrou que o Santo António da Neve é um local simbólico. “É simbólico porque devemos ter pontos de encontro em relação ao que devemos fazer para que não se verifiquem situações iguais. Há desafios muito grandes e é preciso que quem decida tenha a clareza para entender a dimensão da tragédia que aconteceu”, alertou. Armando Carvalho acrescentou que “estamos a partir do zero”, o que nos dá “liberdade para fazer”, lamentando ainda já ter visto incêndios passarem três vezes no mesmo sítio, nas mesmas circunstâncias. “Tem que haver compromissos e tem que haver esforços entre todas as entidades para criar uma solução duradoura. Tem que haver uma solução alargada e fundamentação nas decisões tomadas, um compromisso de futuro. Temos uma herança muito má. Temos potencial mas a forma como o temos gerido tem os seus custos”, acusou, acrescentando que as mudanças que se estão a verificar, como o aquecimento, são a nível global e que temos que nos preparar. “O momento tem que ser de inspiração”, rematou. Também Carlos Fonseca, biólogo e professor universitário, denunciou que “herdamos uma terra que não é de todo a melhor” mas que “integra valências extraordinárias”. “A catástrofe leva a um momento zero e a uma oportunidade de fazer diferente do que fizemos durante séculos. Isso só se faz com as pessoas que vivem nos territórios”, avisou, também.
Por fim, Rita Serra explicou que metade da serra portuguesa são baldios e que todos somos compartes. A investigadora no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra detetou três problemas. “Não controlamos os nossos recursos; há uma distribuição assimétrica de valor; os compartes dos baldios não sabem que o são nem querem saber”.

Lousitânea leva carvalho para plantar

A Lousitânea – Liga dos Amigos da Serra da Lousã, uma das coorganizadoras do evento levou um carvalho para que se plante no outono, apelando aos presentes que se juntassem a eles, num gesto simbólico. “É o momento de começarmos do zero. Com intervenção, o país ficará a ganhar pois nem sempre com água se combate o fogo. Também com plantas árvores autóctones se pode fazê-lo”, explicou Luiz Alves, presidente da coletividade. Também Carlos Seco, da Cooperativa Trevim, outra das entidades coorganizadoras do evento, disse que é importante pensar o futuro e trabalhar com os mais novos estas questões, alertando que é importante que esta tragédia faça com que se passe das palavras aos atos.

 

Veados são problema para árvores  folhosas

Um comparte, António José Ferreira, alertou que a introdução de veados na Serra da Lousã veio criar um problema pois não permite que os castanheiros e as árvores folhosas cresçam. “Devem existir mas de forma controlada. Devia haver um fundo para árvores como os castanheiros que são destruídas”, disse. Carlos Fonseca respondeu que a reintrodução dos veados foi a que mais sucesso teve em Portugal e que os veados na Lousã são uma referência a nível nacional e internacional. “É possível compatibilizar a presença dos veados com a floresta, a agricultura e o turismo. Quando se plantam castanheiros deve-se protegê-los dos animais”, explicou.

Tags:
Autor: Jornal Trevim

0 Comentários

Meteorologia

Artigos relacionados

Trevim: Leia também ‘Como eu vejo os Monumentos’ na Casa das Condessinhas Cultura
01 Dez 2022 12:20 PM

Está patente na Casa das Condessinhas, turismo de habitação na zona histórica da Lousã, a exposição de desenho ‘Como vejo os Monumentos’, de Eurico Ladeira. Leia a notícia completa na edição n.º 1497 do Trevim

Ler artigo
Trevim: Leia também Arte-Via leva modelo do FLII a outros continentes Cultura
01 Dez 2022 12:18 PM

A escritora Ana Filomena Amaral partilhou na Nigéria, no dia 22, alguns dos "bons resultados" alcançados na realização do Festival Literário Internacional do Interior (FLII) ao longo de cinco anos. Leia a notícia completa na edição n.º 1497 do Trevim

Ler artigo
Trevim: Leia também A ruralidade de Saramago em “As Pequenas Memórias” Cultura
01 Dez 2022 12:14 PM

Maria Celeste Garção No dia 19 de novembro, a Liga de Amigos do Museu Etnográfico Dr. Louzã Henriques (LAMELH), celebrou o centenário de Saramago, nascido a 16 de novembro de 1922, na Azinhaga do Ribatejo. Leia a notícia completa na...

Ler artigo
Trevim: Leia também Francisco Gonçalves ganha um lugar no pódio na prova mais importante do Circuito Nacional Desporto
01 Dez 2022 12:08 PM

Adriana Carvalho Durante os dias 12 e 13 de novembro, os nossos atletas não seniores do Cabril-Serpins participaram na prova de maior importância do circuito nacional do calendário da Federação Portuguesa de Badminton, deste mesmo escalão. Leia a notícia completa...

Ler artigo
Trevim: Leia também Rugby Club da Lousã continua a somar vitórias Desporto
01 Dez 2022 12:02 PM

As equipas de sub-16 e de sub-19 do Rugby Club da Lousã deslocaram-se à Trofa onde defrontaram os  Espartanos,  um novo clube daquela cidade. Leia a notícia completa na edição n.º 1497 do Trevim

Ler artigo
Trevim: Leia também ‘Quase Congresso de Música Afetiva’  em Serpins Cultura
01 Dez 2022 12:00 PM

A associação ‘A Música Portuguesa a Gostar dela Própria’ (MPGDP) organiza o ‘Quase Congresso de Música Afetiva’ a 8 de dezembro, na sede do Rancho Folclórico Flores de Serpins. Leia a notícia completa na edição n.º 1497 do Trevim

Ler artigo
Definições de Cookies

A TREVIM pode utilizar cookies para memorizar os seus dados de início de sessão, recolher estatísticas para otimizar a funcionalidade do site e para realizar ações de marketing com base nos seus interesses.

Estes cookies são essenciais para fornecer serviços disponíveis no nosso site e permitir que possa usar determinados recursos no nosso site.
Estes cookies são usados ​​para fornecer uma experiência mais personalizada no nosso site e para lembrar as escolhas que faz ao usar o nosso site.
Estes cookies são usados ​​para coletar informações para analisar o tráfego no nosso site e entender como é que os visitantes estão a usar o nosso site.

Cookies estritamente necessários Estes cookies são essenciais para fornecer serviços disponíveis no nosso site e permitir que possa usar determinados recursos no nosso site. Sem estes cookies, não podemos fornecer certos serviços no nosso site.

Cookies de funcionalidade Estes cookies são usados ​​para fornecer uma experiência mais personalizada no nosso site e para lembrar as escolhas que faz ao usar o nosso site. Por exemplo, podemos usar cookies de funcionalidade para se lembrar das suas preferências de idioma e/ ou os seus detalhes de login.

Cookies de medição e desempenho Estes cookies são usados ​​para coletar informações para analisar o tráfego no nosso site e entender como é que os visitantes estão a usar o nosso site. Por exemplo, estes cookies podem medir fatores como o tempo despendido no site ou as páginas visitadas, isto vai permitir entender como podemos melhorar o nosso site para os utilizadores. As informações coletadas por meio destes cookies de medição e desempenho não identificam nenhum visitante individual.