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Uma visita à vida de Anthony Bourdain (filas da frente)

Bruno Fernandes

Numa visita a Lisboa que fez mais pelo ego português do que 10 restaurantes premiados com estrelas Michelin, Anthony Bourdain, depois de um périplo gastronómico elevado pela cidade, onde comer gourmet e discute a vida com António Lobo Antunes, termina a sua ronda comendo uma bifana no pão num singelo recanto lisboeta. Nascido em 1956, Bourdain é isto: num programa de quarenta minutos, mergulha naquilo que faz um local a partir do prato, mas nunca esquecendo, acima de tudo, o que faz de nós pessoas. Ao longo da sua carreira, Bourdain construiu uma personalidade pública usando o formato estafado do programa de viagens culinárias numa espécie de caderno filosófico sobre a Humanidade. A sua grande tese é humana e não culinária: ainda que estejas em território estrangeiro, ainda que não conheças ninguém, há verdades universais e todos as partilhamos. Dá o passo e vive-as sem te esconder e sem querer complicar.

Mais do que um aventureiro gastronómico, Bourdain era um pensador rock n´roll. Na sua ideia, é à mesa que as pessoas se revelam de facto, no acto de comer e de partilhar com outro e a sua cultura em cada refeição. Desde a Indonésia até ao deserto americano, do Butão à Namíbia, o norte-americano devorou o mundo e cada um dos seus fãs e espectadores foram apenas comensais secundários. Admirava-o um pouco, eu, um recalcado da mudança. A sua insistência em que não ser um entre outros, mas sim um com outros e a beleza que essa perspectiva dava aos seus programas faz deles não um retrato culinário, mas folclórico daquilo que somos pelo mundo. É por isto, e não pelas panelas, que a recente morte de Anthony Bourdain, bateu como se de um grande ídolo do Cinema se tratasse. Um cinéfilo confesso, Bourdain pareceu no entanto fugir sempre da ribalta, correndo o mundo porque de outra forma o mundo apanha-o. Confunde sempre quando alguém desaparece desta maneira, de como grandes vidas parecem ser afinal pequeno consolo. Mas Bourdain merece ser lembrado como um alquimista moderno, buscando uma pedra filosofal chamada alma nos recantos mais inesperados. Até numa bifana em Lisboa.

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Autor: Carlos A. Sêco

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