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Crónica de uma morte anunciada

Na manhã do fatídico 15 de outubro de 2017, ainda o fogo estava longe de alcançar as proporções que ficarão na memória dos serpinenses quando as chamas saltaram o rio Ceira e começaram a consumir a antiga fábrica de papel do Boque. Muita gente, ao ver as enormes chamas que rapidamente consumiram as velhas estruturas de madeira e lançavam enormes labaredas que os bombeiros tinham dificuldade em domar, sinal de que estavam perante uma causa perdida, pensaram para consigo que esta seria a última estocada que poria um ponto final a já longa agonia em que estas instalações se encontravam. Poucos meses depois da tragédia que este dia significou para o país, ainda o chão estava escuro, coberto de cinza, e nem se vislumbravam os rebentos da nova vegetação, já se preparava o abate do que restava da fábrica que era, ainda é, e espera-se que continue a ser uma referência desta freguesia.

Surge agora a notícia das intenções camarárias de deitar uma pedra sobre o assunto, desclassificando o imóvel, desprovendo-o do seu “Interesse Municipal”, libertando-o assim das burocracias que o protegiam de ser aniquilado. Assim se apaga parte da memória de um povo, fazendo aquilo que é o mais fácil: pegar numa máquina e mandar abaixo o que restou. Depois, é só retirar o entulho e reinar o vazio. Por falar em vazio, talvez esta fosse a melhor forma de caracterizar o espaço interior destas instalações industriais em resultado da irresponsabilidade grosseira de quem comprou o recheio para, de seguida, o deixar ao abandono, à mercê de quem aproveitou o desleixo, isto é, o convite das entidades “competentes” para roubar o que poderia valer alguns tostões num ferro velho.

Terá de ser esse o destino a que as ruínas da fábrica estão condenadas? Houve a preocupação de ouvir a população local sobre um assunto que lhes diz tanto respeito? Houve alguma vontade política em mover alguma diligência no sentido de reabilitar o espaço, com vista a uma futura candidatura a algum pólo museológico? Será sensato decidir de uma forma unilateral, concretizando ações que mais tarde possam pecar pela sua irreversibilidade? Talvez sejam questões que o comum do cidadão possa colocar a si próprio ou aos outros. E não são só pertinentes, mas urgentes.

Não se pretende entrar no jogo demagógico de fazer comparações que possam soar algo desfasadas mas, há menos de um mês, o Museu nacional do Brasil, no Rio de Janeiro, vítima de anos de abandono e desmazelo em resultado da falta de visão e de investimento, sofreu um incêndio que o reduziu praticamente a cinzas, ficando ao léu a carcaça dos seus escombros. “Casa arrombada, trancas à porta”, diz o velhor ditado popular. Já foram anunciadas verbas de várias proveniências para reparar o mal feito, nomeadamente na reconstrução do espaço que tanto simbolismo tem para a História do país (e nossa também) e voltar a dar vida, da maneira mais adequada possível, a umas paredes nuas e instáveis. Por cá, nem trancas à porta há.

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Autor: Joaquim Seco

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