António Marçal
Vereador na Câmara Municipal da Lousã
Há territórios que ardem e, por uns dias, tornam-se o centro do país. Chegam as televisões, multiplicam-se as declarações. Depois o fogo apaga-se, as câmaras partem, e a vida nacional continua. Para quem ficou, nada volta tão depressa ao normal. A Serra da Lousã sabe bem o que isso significa.
Em agosto de 2025, o fogo atravessou a Serra, ameaçou aldeias, obrigou a evacuações e deixou cerca de 3317 hectares ardidos. Um ano depois, já fora da agenda pública, a Serra continua a carregar as suas consequências — e até a Comissão Técnica Independente criada para avaliar os grandes incêndios de 2025 acabou, de certa forma, por se esquecer dela.
Não por falta de matéria. A própria Comissão ouviu representantes da Comunidade Serra da Boavista e Mata do Sobral e considerou “absolutamente eloquentes” os testemunhos recolhidos, registando casos de pessoas que ficaram sozinhas a defender as suas casas. Ainda assim, o incêndio não mereceu uma análise operacional aprofundada. A razão está no critério escolhido: privilegiar os maiores incêndios por área ardida — definido pelo mandato da CTI, pelo que a crítica deve começar na opção política que o originou, não na Comissão. Medir a relevância de um incêndio só pelos hectares é insuficiente: mede-se também pelas populações ameaçadas e pelas lições que pode ensinar.
Na Lousã houve matéria de sobra para aprender. Houve centenas de operacionais e um esforço notável dos bombeiros, que importa reconhecer sem reservas. Mas isso não transforma o incêndio numa história em que tudo correu bem — a própria CTI mostra que muitos meios não garantem, por si só, resposta a todas as ameaças quando um incêndio ganha dimensão e velocidade.
Houve ainda uma controvérsia séria em torno de uma operação de fogo tático a 17 de agosto. O Município contestou as condições em que foi executada, estimou em cerca de 300 hectares a área afetada e pediu a fita de tempo para apurar o sucedido — o que, por si só, justificava uma avaliação técnica independente. Não se trata de procurar culpados, mas de aprender antes que volte a acontecer.
É aqui que a leitura do relatório de 2025 se torna desconfortável. Muitas das recomendações já as tínhamos lido depois de 2017, repetidas em 2019, nas críticas ao Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais em 2021, e nas lições da Serra da Estrela em 2022. Qualificação, comando, antecipação, integração entre prevenção e combate — há quase uma década que sabemos isto. Em 2017 dizia-se que era preciso reformar o sistema. Em 2026 a pergunta já não pode ser a mesma: o que aconteceu à reforma? Portugal não sofre de falta de conhecimento técnico. Sofre da incapacidade de o transformar em execução — e essa história repete-se no pós-incêndio. Há anos que relatórios alertam para a urgência de estabilizar solos, gerir sobrantes e recuperar acessos. Logo em agosto de 2025 o Município alertou para a necessidade urgente de estabilização nas zonas atingidas, dados os declives e a sensibilidade ambiental da Serra. Passou quase um ano.
Há intervenções anunciadas, e seria injusto ignorá-las. Mas a discussão não pode ficar pelas intenções: a vegetação regenera, acumulam-se sobrantes, degradam-se caminhos — a que se somaram os estragos das tempestades de 2026. A expressão é dura, mas talvez a mais exata: uma Serra sem intervenção atempada pode voltar a ser um barril de pólvora.
As responsabilidades estão repartidas entre Governo, ICNF, Município e proprietários. A quem vive na Serra pouco interessa o jogo administrativo de perceber onde acaba a competência de um e começa a do outro. Interessa saber se o caminho está transitável, se a vegetação está gerida, se a aldeia está protegida — e se alguém pensou no que acontece quando o próximo incêndio chegar.
Também ao nível municipal há trabalho a fazer. A Lousã tem hoje um Coordenador Municipal de Proteção Civil e comandos distintos nos Bombeiros Municipais e Voluntários de Serpins, mas o essencial não está no organograma: está em saber se as estruturas trabalham, treinam e aprendem juntas. O Plano Municipal de Emergência já prevê articulação e avaliação de lições aprendidas — precisamos que seja testado até ao limite e traduzido em procedimentos concretos.
Preparar as populações é essencial, mas exige cuidado: autoproteção não pode significar transferência de responsabilidade. Depois de a CTI ter registado pessoas sozinhas a defender casas, a resposta não é ensiná-las a fazê-lo melhor — a preparação começa antes.
Um ano depois, talvez a maior lição seja esta: a Serra da Lousã não precisa de esperar por mais um relatório para sabermos o que fazer. Muito do essencial já foi escrito em 2017, repetido em 2019, 2021 e 2022, e recomendado de novo agora. O que falta já não é diagnóstico. É continuidade, execução e responsabilidade — porque o pior esquecimento não acontece quando as televisões partem, mas quando reconhecemos o problema, escrevemos relatórios, e o território continua à espera.
A pergunta é outra: quanto da Serra da Lousã está hoje efetivamente mais segura — e quanto continua simplesmente à espera que alguém passe das recomendações à ação?
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