Ainda não chegámos aos 60 anos, mas estamos suficientemente perto para parar, olhar para trás e perceber o caminho percorrido. Em 1 de outubro de 2027, o Trevim completará seis décadas de existência.
Até lá, temos mais um ano de trabalho, desafios e mudanças. Falar hoje dos 60 anos é, por isso, preparar esse caminho, fazendo uma breve resenha dos 59 anos que ficaram para trás e pensando no futuro.
Em 1967, numa Lousã muito diferente da atual, sete jovens — Pedro Malta, António Neves Ribeiro, Fortunato Almeida, João Poiares da Silva, José Redondo, José Luís Duarte e Rui Fernandes — decidiram criar um jornal.
Era uma iniciativa ousada, num país condicionado pela censura e pela PIDE, a polícia política da ditadura, onde a imprensa local não tinha vida fácil. O Trevim, porém, não foi o primeiro jornal da Lousã.
O Alma Nova, ligado à história da Gráfica da Lousã, e mais tarde A Voz da Paróquia, afeto à Igreja Católica, foram antes outros dos títulos da imprensa local.
Experiências diferentes, em épocas diferentes, mas unidas pela necessidade de uma comunidade se expressar através dos jornais.
O desaparecimento dessas e outras publicações e a continuidade do Trevim são parte da história da imprensa lousanense. Não se trata de estabelecer vencedores, mas de reconhecer como é difícil manter a imprensa local — e ainda mais difícil fazê-la perdurar durante décadas.
O percurso destes 59 anos do Trevim é feito de pessoas: diretores, jornalistas, colaboradores, revisores, correspondentes, fotógrafos, cooperantes, anunciantes e, sobretudo, leitores. É uma história feita de dificuldades financeiras, mudanças tecnológicas e diferentes gerações.
Em 1970, poucos anos depois do nascimento, o Trevim chegou a interromper a publicação devido a dificuldades administrativas e financeiras. Regressaria meses depois. E houve a censura.
Com a ditadura de Salazar e Caetano, publicar significava enfrentar cortes, limitações e intervenções. Depois, chegou o 25 de Abril e, com a liberdade, uma nova responsabilidade: fazer jornalismo numa sociedade democrática, assente na crítica e na pluralidade.
Em 1979, a criação da Cooperativa Trevim reforçou a dimensão coletiva e comunitária do projeto.
Passo a passo, o nosso jornal tornou-se um enorme arquivo da vida da Lousã e da região, registando transformações sociais, económicas e urbanas, a atividade autárquica, o movimento associativo, a cultura, o desporto, as escolas, as freguesias, as empresas, as instituições, as tradições e tantas histórias individuais.
Um jornal local tem uma característica que nenhum algoritmo substitui: a memória. Sabe quem esteve, quem organizou, quem lutou, quem ajudou, quem ganhou, quem perdeu e quem já não está.
O Trevim foi testemunha, mas também interveniente e espaço de debate. E tornou-se uma ponte entre a Lousã e os muitos conterrâneos espalhados pelo país e pelo mundo.
Hoje, essa ponte é também digital. A informação circula instantaneamente, as redes sociais multiplicaram as vozes e tornou-se mais difícil distinguir informação, opinião e rumor.
É neste contexto que o jornalismo profissional e independente mantém a sua importância. Não basta chegar primeiro: é preciso verificar, confirmar, contextualizar, ouvir e explicar. E, quando necessário, reconhecer erros e corrigir.
É aqui que o Trevim deve encontrar o seu futuro: modernizar sem descaracterizar, inovar sem perder o rigor.
O papel continuará a ser memória e arquivo. O digital permitirá chegar mais depressa, mais longe e a novas gerações. Os 60 anos devem ser mais do que uma data.
Devem ser um horizonte: conquistar novos leitores, aproximar os jovens, reforçar a presença digital, chegar melhor à diáspora, preservar e disponibilizar a memória acumulada desde 1967.
O Trevim não pode viver apenas da sua história. Mas também não pode construir o futuro ignorando-a.
Luísa Pinto Ângelo, diretora do Trevim
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