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De Teerão a Pequim – um diário de bordo

Voltar a Yazd

Diz a sabedoria dos mais experimentados na vida que não devemos voltar a um sítio onde fomos felizes. Não tem de ser necessariamente assim. O Irão é um desses casos, e a cidade de Yazd um exemplo bem mais concreto.
As personagens são diferentes, as vivências também, mas o cenário está lá e ainda cheira a novo. A História nunca se repete, pelo que não podemos ir na expectativa de recauchutar seja o que for. E ainda bem, pois assim estamos mais abertos a novas vivências.
Fiz uma passagem de raspão por Teerão, mas foi o suficiente para ser acolhido por uma fantástica família que praticava uma religião que eu desconhecia, a fé Ba Haì, criada no século XIX nesta antiga Pérsia mas que, nos dias que correm da teocracia xiita islâmica, são perseguidos e duramente reprimidos pelas autoridades. Tive imensa satisfação em oferecer-lhes umas boas fatias de presunto que levei, inadvertidamente, de uma forma ilegal para o país uma vez que cá é proibido não só o consumo de álcool como também de carne de porco.

Apanhei um comboio da capital para Yazd, supondo que iria dormir finalmente numa daquelas camaratas bem rijas de seis lugares, mas pouco mais de três horas de tentar descansar, eis que o funcionário me avisa de que estamos a chegar ao destino. Nem queria acreditar. Como é possível não ter havido nenhum atraso significativo que me tivesse proporcionado mais um pouco de sono. Saio da carruagem meio desesperado. Ainda é noite, não são sequer quatro e meia da manhã e procuro rapidamente uma solução. Eis que surge o milagre anunciado: pergunto a dois jovens que tinha conhecido no comboio onde é que iam dormir. Um deles, lembrou-se de ir ver como estava a mesquita da estação e voltou com aquela expressão de quem tem fé que dá para lá dormir umas horas no chão. Colei-me logo a eles e escondi-me como pude, de maneira a que não reparassem que estava ali um estrangeiro a fazer óó. Mas que noite santa. Duas horas depois, acordam-me, visto que tínhamos de sair estrategicamente pois ia dar-se início às primeira oração do dia e aquilo ia encher. Acho que não me iriam deixar dormir em paz. Fomos então para a sala de espera, que por sorte tinha os bancos um pouco almofadados. Fiz aí a minha segunda parte.
Mais fresco, pelas oito da manhã acordo sozinho naquele espaço. Os meus colegas sem abrigo foram à vida deles e eu senti que também era momento de ir à minha.

Venho para o centro da cidade em busca do local onde tinha ficado há sete anos atrás, o Silk Road Hotel. Foi bom regressar a este cenário que tão boas memórias me deu. Creio a deambular pelas ruas sob 45 graus de temperatura e ao fim da tarde tive de ir ao meu sítio de eleição, as Torres do Silêncio, o local sagrado dos praticantes do Zoroastrismo, uma religião mais antiga que o próprio Cristianismo. Segundo este culto, quando alguém morria, o seu corpo era considerado impuro, e já não podia voltar para a terra. Então, era levado na procissão até ao cimo deste monte para aí ser deixado e, aos poucos, ser devorado pelos pássaros. É um local muito especial, com uma fotogenia muito própria. Vir aqui ao fim da tarde, quando os raios de sol e os poucos visitantes vão desaparecendo, é uma experiência única. Não costumo fotografar-me nos sítios onde vou, mas abri aqui uma excepção pois tinha que ficar com um registo pessoal desta experiência.
Que bom que é voltar ao Irão, a Yazd, e perceber que, se por um lado, já coisas que mudam, por outro, a base está sempre lá e há um magnetismo que não perdeu a sua força.

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Autor: Joaquim Seco

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