Vimos que o desenvolvimento das Comunidades Europeia, nomeadamente a CEE, provocou, nos anos 60 e seguintes, a emigração para a França e, depois, para a Alemanha e Luxemburgo. Foi assim que algumas centenas de trabalhadores do nosso Concelho e todos na flor da idade se foram procurando vida melhor.
Mas o êxito da CEE teve outro efeito na agricultura concelhia, talvez ainda mais demolidor. Provocou o aparecimento, sob a égide do Reino Unido, no início do ano de 1960, da Associação Europeia do Comércio Livre, mais conhecida pela sua sigla em inglês, a EFTA, de que Portugal também foi fundador. Ao contrário da CEE, quedava os seus objetivos apenas pela criação de um mercado sem fronteiras e, portanto, mais propício às trocas comerciais e ao desenvolvimento económico. O regime ditatorial português, admitia, enfim, a buliçosa industrialização em detrimento da quietude da agricultura.
E o que a EFTA teve a ver com desertificação das terras de cultura no nosso Concelho? Teve muito a ver porque provocou um enorme desenvolvimento industrial, nomeadamente nos setores típicos do início da Revolução Industrial (têxteis, calçado, vestuário, maquinaria) que utilizavam bastante mão de obra muito mais barata do que a do Norte da Europa.
Daqui resultaram grandes investimentos e um largo passo para a industrialização, ou seja para a mudança do setor primário para o secundário da Economia. Como escreveu um renomado economista – Álvaro dos Santos Pereira – “entre 1960 e 1973, as exportações portuguesas cresceram a taxas que rondaram os 19% ao ano, taxas que só foram superadas por países que experimentaram milagres económicos, como os países asiáticos”.
Também no nosso Concelho, as velhas fábricas de papel, do Prado e do Boque, muito cresceram e se modernizaram. Em detrimento da Nova Empresa (ainda a vapor) passaram a grandes algumas fábricas de serração de madeiras para além de têxteis e maquinaria. Naturalmente, passou a haver trabalho contínuo, a respeitarem-se os horários de trabalho (das 8/48 horas) e a receberem-se retribuições certas ao fim da semana ou quinzena e até a beneficiar-se de seguro e caixa de previdência com assistência médica e hospitalar gratuitos. E alguns, pasme-se, até já não trabalhavam ao sábado à tarde, sendo certo que o domingo era mesmo dia santo.
Mas mais importante: muitos filhos desta gente já não tinham que ir trabalhar após a 4.ª classe (no campo ou como aprendiz de uma profissão) já iam para o Externato de Santo António, para a Escola Avelar Brotero ou para o Liceu D. João III.
No cume desta profunda mudança, ao contrário do que sempre aconteceu, só os idosos (ou alguns saudosos) continuaram a trabalhar no campo, dando continuidade à agricultura de subsistência, mas a minguar, a olhos vistos, de ano para ano e, assim, dando espaço ao abandono das terras de cultivo e “semeando” o silvedo e o matagal, que o fogo haverá de consumir.
Alcides Martins
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