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A maior força política em Portugal é o partido dos que ficam em casa

Se existisse um partido daqueles que não votam, com os níveis de abstenção em Portugal, governaria o país com uma estabilidade quase invejável. Teria mais votos que qualquer outra força política, mais deputados do que qualquer coligação e maiorias confortáveis em praticamente todas as eleições. Sem campanha, sem cartazes e sem as típicas batalhas televisivas, seria – com uma facilidade desconcertante – a maior força política do país.

Naturalmente, esse partido não existe. Mas os seus “eleitores” estão lá. Numa dimensão suficientemente notável para tornar a abstenção numa espécie de bancada invisível nas eleições portuguesas.

Em muitos atos eleitorais, aproximadamente 40 a 50% dos cidadãos inscritos não votam. Nas eleições europeias, então, a participação tem sido ainda mais deficitária. Isto significa que governos, parlamentos e decisões políticas acabam por vir da escolha de cerca de metade do eleitorado. A democracia portuguesa continua a funcionar, é verdade. Mas funciona com uma carência curiosamente assídua.

Ainda assim, o fenómeno tornou-se quase banal. A abstenção aparece nas noites eleitorais como mais um número no ecrã, analisado durante alguns minutos (se analisado) e rapidamente ultrapassado por debates sobre vencedores, derrotados e rearranjos parlamentares. Como se metade do país não participar no momento mais elementar da vida democrática fosse apenas um detalhe estatístico.

Noutros contextos, uma ausência desta dimensão seria tratada como uma emergência estrutural. Se metade dos trabalhadores não aparecesse no emprego: uma crise sem precedentes. Se metade dos contribuintes deixasse de pagar impostos: o colapso financeiro. Mas quando metade dos cidadãos decide não votar: “participação moderada”. Sendo assim, a democracia portuguesa continua a funcionar normalmente. Apenas para metade dos cidadãos.

Está, assim,  plantada a bomba-relógio para a democracia. Não faz barulho, não produz um aparato televisivo, e, por isso, raramente provoca alarmes institucionais. Pelo contrário: está colocada discretamente no canto da sala, enquanto o sistema político continua a discutir sondagens, coligações e estratégias eleitorais como se tudo estivesse perfeitamente normal.

O curioso é que ninguém parece saber exatamente quando, ou se, essa bomba explode. Talvez nunca. Talvez simplesmente continue ali, a marcar o tempo, eleição após eleição, enquanto cada novo ciclo eleitoral confirma a mesma realidade: menos cidadãos a participar, mais “participação moderada”. Uma espécie de relógio político que continua a fazer “tic-tac”, mas ao qual todos nos habituámos de tal forma que já quase deixámos de o ouvir. E talvez seja essa a parte mais curiosa da metáfora: não o risco de explosão, mas a sublime capacidade coletiva de ignorar o relógio.

A questão torna-se particularmente interessante quando olhamos para as gerações mais jovens. Durante muito tempo, os jovens foram frequentemente apresentados como os grandes ausentes da participação política formal. Menor participação eleitoral, menor envolvimento em partidos e maior distância face às instituições tradicionais. Nos últimos anos, contudo, começaram a surgir sinais mais ambíguos. Muitos jovens demonstram hoje interesse em temas públicos, desde alterações climáticas à habitação ou educação. Participam em debates, manifestam-se, organizam iniciativas cívicas e discutem política com uma intensidade que seria difícil imaginar há algumas décadas.

O paradoxo é que essa energia cívica nem sempre se traduz em participação eleitoral consistente. A política continua presente nas conversas e nas preocupações de muitos jovens, mas nem sempre chega à urna de voto. Ou porque são ainda menores, ou porque já desistiram, para nossa tristeza.

Isso levanta uma questão simples, mas relevante: estaremos perante a geração de ruptura deste problema?

Seja qual for a resposta, a abstenção em Portugal continua a ser um dado difícil de ignorar. Porque, no fundo, cada eleição confirma a mesma realidade curiosa: entre todos os partidos que disputam o voto dos portugueses, o único que continua a crescer de forma consistente é aquele que nunca aparece nos boletins de voto.

O partido dos que ficam em casa.

Afonso João Teixeira

 

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Autor: Jornal Trevim

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