Gosto tanto da serra da Lousã que dou por mim em comichão sempre que vejo uma foto com aqueles baloiços e reclames em madeira que agora espalharam por aí porque ela é muito mais que aquilo. Mesmo não sendo lousanense ou de nunca ter morado colado a este mastronço alto de mil e duzentos metros, é-me essencial e faz parte de mim, do meu crescimento, do que me fiz.

Sei que para muitos, a maior parte, uma serra são pedras e árvores, estradas meio conservadas que a atravessam, alcatrão ou terra, bichos ocasionais, pausa de fim de semana, sombras e nevoeiro, qualquer coisa que inspira aquela foto bacana ou a tirada armada à poesia. Para mim, é lembrança e memória. O escutismo fez parte de mim durante vinte anos e mais de metade deles, tradição do meu agrupamento – 309 Ceira – subi a serra da Lousã a pé por todos os lados possíveis: a partir de Miranda, vindo pela Senhora da Piedade de Tábuas; dos lados do Coentral, seja pela estrada que já foi de alcatrão e hoje é de buracos, ou até por um caminho de terra que passa por um dos segredos mais bem guardados desta montanha, um motel abandonado; seja pela própria Lousã, quer corta-fogo acima e fogo à peça, quer pela Levada de Água apanhando depois via hoje aberta para o Candal (no meu tempo, bem mais fechada); ou pelo Terreiro as Bruxas; ou a clássica Rota do Talasnal.

As minhas pernas cansaram-se em todas elas. Vi veados e javalis, vi até humanos ainda morando nas Casas de Guardas Florestais, dormi nalgumas, acampei junto de outras. A neve envolveu-me, o sol queimou-me, a chuva deu-me vontade de desistir, mas a visão daquelas antenas lá em cima, o Trevim como objectivo, empurrava-me. Vinte anos é muito tempo para conhecer toda esta imensidão de pedra, que percorre seis concelhos entre os distritos de Coimbra e Leiria e parece ter tantas serras diferentes em si: quartzo e xisto, um pouco de calcário, castanheiros e cedros, carvalhos na mistura, Penedos de Góis e o Castelo de Arouce, a Pedra Ferida e as aldeias de xisto, a ribeira do Coentral e a água gelada da Senhora da Piedade, o Cabril do Ceira e o Observatório Astronómico, a Rota dos Moinhos de Água e a Rota dos Baldios… Até tenho de parar para me recuperar de todas estas visões na minha cabeça, do tempo geológico da serra que é tanto e do meu biológico tão curto em comparação. Sempre que aqui venho, aumento a minha vida em anos, sei-o.

Por que é que esta é a minha montanha preferida de todas em Portugal? Ainda que não seja tão alta como a Estrela. Ainda que, reconheça-se, o Gerês é mais largo e vasto e fica melhor em anúncios publicitários. Esta serra é para mim uma passadeira onde desfila uma parte do que fui sendo, e chega-me. É também o local onde regresso em primeiro quando passo muito tempo longe de onde cresci. Não é casa, mas é como se fosse. É colo, é afago, é abraço; e já me faz voar bem alto sem precisar de qualquer baloiço. Tão simples, assim.

Bruno Fernandes, professor de História e “alguém que dá umas voltas a pé”.