José Oliveira

A notícia é relativamente recente: as herdeiras de António Paulouro desfizeram-se das quotas de 40 por cento do capital que detinham no Jornal do Fundão. E venderam a participação por preço simbólico, segundo seu próprio relato que ouvi via Antena Um. Por que motivo? Também esclareceram: aquele jornal, que hoje pertence a um dos maiores grupos de imprensa, “já não é o mesmo que o meu pai criou”. Outra frase que retive: “É o fim de um ciclo”. E ainda outra: “Resta agora a memória”.
Igualmente relatado pelas filhas, durante a mesma entrevista: António Paulouro não tinha férias, vivia com permanentes dificuldades económicas, enfrentava as diatribes da censura, que chegou a eliminar – acrescento eu – a totalidade da primeira página e as duas centrais só porque divulgavam (em desenvolvida reportagem) uma predominância de bócio na Cova da Beira, explicando que a doença proliferava, em consequência da míngua de iodo que as montanhas envolventes impediam que lá chegasse trazido pelos ventos desde o mar. Foi proibido publicar isso! Teve na redacção rusgas da Pide. Apesar de tudo isso, o jornal sobreviveu. E foi sempre distinguido por uma dignidade e prestígio que lhe atribuíam os leitores, não só os da Cova da Beira mas de modo geral todos os portugueses que, fossem de onde fossem, soubessem distinguir entre um jornal autêntico e um pseudo-jornal. Nisso, tinha um ou outro parceiro, mas poucos; assim de repente lembro-me do já extinto Notícias da Amadora e do Comércio do Funchal. Mais uma frase que retive de uma das filhas de Paulouro, para caracterizar o jornal do pai: “Fidelidade à terra”.
Nós, que mantemos de pé o Trevim há mais de 50 anos e sempre vimos no Jornal do Fundão um nosso irmão mais velho que nos inspirava, (não propriamente por ter uma idade vinte e poucos anos a mais do que o nosso, mas porque mantinha uma coluna vertebral hirta), não desejamos que alguma vez se nos possa apontar, em sentido reformista, “o fim de um ciclo”. E será trágico se alguma vez se disser, acerca do Trevim, em tom de lápide funerária, “resta agora a memória”.