É momento de abandonar a capital da China. Dirijo-me à estação de Pequim Este, uma das suas principais gares ferroviárias, para dar início a uma viagem que me levaria a percorrer o país de lés a lés. Entro num metro apinhado de gente, onde sou apenas mais uma sardinha dentro de uma lata que se move a uma velocidade estonteante, a mesma com que alguns reclamos luminosos nos perseguem em ecrãs estrategicamente colocados nas intermináveis paredes dos túneis, sempre em sintonia com o nosso olhar.

Entrar na estação requer passar por um controlo de segurança apertadíssimo. Há que mostrar o passaporte e o bilhete, permitir que os agentes me façam uma foto, se acharem necessário, esperar que a minha bagagem seja inspeccionada nos raios X e só depois sou autorizado a entrar num mastodonte de betão armado e vidro. Procuro a sala 10, um espaço só por si maior que algumas estações do meu país, onde centenas, se não mesmo de milhares de passageiros, aguardam pelo mesmo meio de transporte.

Num tom militarista somos avisados, quinze minutos antes, para nos prepararmos para entrar ordeiramente numa plataforma que se estende por mais de duas centenas de metros. Pego uma vez mais no passaporte e no bilhete e junto-me à enorme fila que se forma. Sigo a massa humana, sorrio enquanto mostro os documentos e, depois de ouvir o sistema electrónico aceitar o meu bilhete, inicio a descida para junto de um comboio com quase vinte carruagens para procurar o meu lugar.

À hora marcada, sem um único segundo de atraso, parto. Nos primeiros quilómetros ainda reina alguma confusão com as bagagens, que, por razões de segurança, são passadas a pente fino pelas hospedeiras munidas com detectores de metais. Olhando pela janela não consigo ver o fim do viaduto que permite ao comboio acelerar até ultrapassar os 300km/hora, perante a indiferença dos restantes ocupantes da carruagem, tão habituados a tal banalidade. É assim que se percorrerão mais de 1700 quilómetros em cerca de oito horas. A paisagem urbana vai dando lugar à imensidão verde dos campos cultivados até ao último centímetro quadrado, uma necessidade tão central de um país que tem mais de um bilião de bocas para alimentar. De repente brotam os pilares do que haverão de ser futuras cidades, erguidos num somatório de centenas de arranha-céus que, plantados no meio do nada, me fazem interrogar sobre quem os virá ocupar.

Ao longo de mais de um milhar de quilómetros, muitas autoestradas haveria de ver, umas em construção, outras já a dar vazão a um tráfego de proporções desajustadas para o que entendemos como o “interior” de um país. O apetite pelas grandes construções é voraz, tal é a loucura do ritmo de crescimento desenfreado e quase sobre-humano imposto por um governo que se quer mostrar forte em relação a concorrentes que, na realidade, já deixaram de o ser.

Apesar de pensar que nem só de crescimento vive uma nação, ou que as tecnologias poderiam ser usadas para fins de um regime tipicamente totalitário, não podia também deixar de ficar pasmado com a ideia, mesmo que falsa, de estar perante um admirável mundo novo.