Vamos partir do princípio de que o Jornalismo é o quarto poder e de que os media têm uma influência preponderante na opinião pública e na promoção dos valores cívicos e democráticos. Acentua-se o afastamento dos cidadãos da vida cívica, seja por desinteresse, desidentificação ou mesmo como resultado da crescente descredibilização de parte da classe política. Sente-se um crescente vazio de ideias que alastra pela sociedade, a par da indiferença do que se passa à sua volta, ou a perda da memória coletiva sobre um passado recente que nos foi tão marcante como o Estado Novo, a ditadura fascista cultivada por Salazar que teve o seu ponto final com “a madrugada que muitos esperavam”, em Abril de 1974. Posto isso, valores como a Liberdade, o antifascismo ou a tolerância deveriam ser pedras basilares sobre as quais assentaria a nossa nação.

Aquilo a que se assistiu ultimamente foi precisamente o seu contrário. Para incredulidade de muitos, e a passividade de outros tantos, um membro de uma formação política de extrema-direita, vulgo neofascista, teve lugar de honra e tempo de antena num programa de um canal televisivo para propagandear as virtudes do nosso ditador de má memória. Sublinhe-se que Mário Machado foi preso por assassinar um cidadão por espancamento e de, atualmente, exaltar a sua ideologia e ação profundamente racista, xenófoba. Todo este currículo, que faria aplaudir muitos déspotas, foi apagado quando foi apresentado apenas como alguém que proferiu “algumas declarações polémicas”. O “entrevistador”, que afinal nem é jornalista, estava alinhado com a necessidade de haver um “novo Salazar”. Fez-se assim um branqueamento total da História, sem qualquer respeito pelos milhares de portugueses que foram perseguidos, presos, torturados e assassinados pela PIDE, dos que tiveram de fugir do país, ou dos que morreram numa guerra sem sentido para manter um Portugal “do Minho a Timor”.

Neste jogo do vale tudo, aposta-se no “quanto pior, melhor”, mas viciar a História em prol da onda de sensacionalismo que tende a afogar os pilares da nossa sociedade é não só grave como perigoso. Imagine-se um programa deste cariz com alguém a reabilitar a imagem de Hitler na Alemanha, de Mussolini em Itália ou de Estaline na Rússia. E muitos mais exemplos haveria para lamentar perante o sofrimento de um povo às mãos de uma ditadura, fosse ela de Direita ou de Esquerda.

Mas a concorrência é feroz nos dias que correm. Se, numa estação de televisão privada, surge este episódio, outra contou com o empurrão da mais alta figura da Nação, o Presidente da República, que decide telefonar a felicitar a apresentadora no seu primeiro programa. Descemos assim a um novo patamar de populismo, roçando o circo. Quem fica a perder é a própria Democracia pois acaba por ser corroída pela sua referência maior, aquela que deveria dar o exemplo.