Estávamos em 1997 quando um grupo de amigos se reuniu, pela primeira vez, no Santo António da Neve. Em comum, a paixão pela Serra da Lousã e as suas gentes.
O que começou por ser uma iniciativa dos jornais Trevim (Lousã), A Comarca (Figueiró dos Vinhos), Mirante (Miranda do Corvo) e O Castanheirense (Castanheira de Pera), juntando-se, mais tarde, a associação Caperarte, representa ainda um alegre convívio anual em que, à volta de farnéis variados, se procura preservar a memória. Este ano não foi exceção.
Na trigésima edição do Encontro, no dia 11, coube a Casimiro Simões, em representação do Trevim, dar o mote: “estamos aqui porque nos identificamos com este espaço e devemos lembrar os que estiveram no início e os que se juntaram”.
“Este momento seria muito mais alegre se cá tivéssemos o Pedro Kalidás, um herdeiro deste espírito festivo. Cada pessoa que vai saindo do nosso convívio faz falta, porque somos tão poucos. Começámos por ser milhares, em 1997, e agora somos umas centenas”, acrescentou.
O antigo diretor do Trevim recordou igualmente momentos com o sindicalista Luís Maria Kalidás Barreto (1932-2020), pai de Pedro Kalidás, falecido em junho.
“Isto é uma organização desorganizada, mas funciona sempre”, afirmava, segundo o orador, o co-fundador da CGTP, que muito jovem foi trabalhar e viver na Castanheira de Pera e que, há 29 anos, muito se empenhou no lançamento do Encontro dos Povos.
Desde então, algumas coisas mudaram. Após os grandes incêndios de 2017, os organizadores começaram a realizar sessões de preservação da memória. Este ano, foi homenageada a Comissão de Melhoramentos Lousã-Castanheira, constituída em 1924.
Mais tarde, o programa passou a incluir mostras de livros com a presença de vários autores. Desta vez, participaram Luís Marques Cunha, Aires Henriques, Casimiro Simões, José Ricardo Almeida e Carlos Sêco, cujas obras puderam ser discutidas ou compradas pelos visitantes.
Tiago Kalidás, por sua vez, falou do tio que morreu recentemente, aos 56 anos. Este foi um discurso emotivo, destacando Pedro Kalidás na função de “honrar o exemplo e a memória do seu pai, seguindo à sua maneira o mesmo sentimento de serviço à comunidade”. Além disso, “entregou o seu tempo e talentos à cultura, ao desporto, à vida associativa e à participação cívica. Era um castanheirense orgulhoso da sua terra, da sua cultura e das suas gentes. Esteve à frente do Centro de Acolhimento Temporário de crianças, no Vilar. Que sorte tiveram por tê-lo encontrado, mas que sorte teve o Pedro por dar o melhor de si e receber o afeto verdadeiro que só as crianças sabem dar”, rematou o sobrinho.
José Ricardo Almeida, autor de “O Poeta Lousanense António Victor”, destacou a importância da estrada que liga a Lousã à Castanheira de Pera. Referiu que, “no final do século XIX, os influentes lousanenses resolveram olhar para a Serra como uma salvação para a economia local, através dos lucros resultantes do turismo”. Aludiu ainda à relação conflituosa entre os serranos e os do vale, “por causa da disputa de pasto para o gado, das lenhas e do carvão”. Concluiu, dizendo que “o mais triste é o não aproveitamento turístico do Cabeço do Pereiro, da capela de Santo António e dos seus Poços de Neve, local onde existe uma história fantástica, capaz de trazer ao local muitos turistas”.
A terminar, Jorge David lembrou que “a Serra, como barreira natural, “impedia a facilidade de deslocação destes povos, principalmente produtores de gado”. Para este castanheirense, “havia uma grande insegurança”, com inúmeros casos de assaltos relatados. Além de lembrar algumas personalidades da Castanheira e da Lousã, como a Ti Emília da Automotora, oriunda do Candal, cuja taberna servia petiscos e vinho a quem usava a estrada da Serra, Jorge David realçou as mais-valias resultantes da construção da estrada, concluída em 1932.
No presente, lamentou as péssimas condições em que as vias de acesso ao sítio se encontram, pelo que “devemos aqui pressionar os órgãos de poder para que estas estradas estejam dignas de transportar turistas.”
Pela Serra acima
A meio da tarde, os caminheiros Joaquim Pinheiro, de 72 anos, e Jorge Jesus, de 63, já estavam de abalada, de mochila às costas. Há trinta anos que vão a pé ao Santo António da Neve, percorrendo 17 quilómetros, “para lá e para cá”. Desta vez, em consequência da tempestade Kristin, encontraram muitos obstáculos no caminho.
Saíram da Lousã às 05:30 e demoraram quatro horas a atingir o objetivo. Passaram por Alfocheira, captação de água do Gevim, Barraca Preta, Cabeço da Ortiga, fonte da Asnela e Trevim. Enquanto as pernas não os atraiçoarem, este é um ritual que querem manter.
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