Na vida da Igreja, as peregrinações foram e são uma prática constante: caminhar rumo a um lugar que se torna espaço de encontro com Deus. Somos um povo peregrino, sustentado pela Eucaristia, a caminho da Pátria celeste. Esta peregrinação comporta sempre uma parte de risco, pois implica reconhecer a nossa fragilidade e o nosso pecado. Como celebramos na festa de Nossa Senhora da Piedade, a fé permite-nos assumir esse risco com esperança pascal.
Toda a vida do cristão é uma peregrinação, mas há momentos em que esta dimensão se vive de forma mais intensa. Assim acontece entre nós, na Lousã, quando subimos ao Santuário da Senhora da Piedade, no tempo pascal e por ocasião da Ascensão do Senhor. Fazemo-lo com o olhar posto em Maria, que nos acompanha como Mãe e modelo.
Como recordava S. João Paulo II na carta apostólica Rosarium Virginis Mariae: Maria é verdadeira “escola”, pois conduz-nos a Cristo e alcança para nós os dons do Espírito Santo, propondo-nos o exemplo da sua “peregrinação da fé”. A sua vida realiza-se no seguimento fiel de Jesus. Ela caminha connosco, especialmente nos momentos de cansaço e dificuldade.
Maria é peregrina, a Peregrina por excelência. Além de Jesus, quem compreendeu melhor que este mundo não é lugar para nos instalarmos, mas caminho para realizar o plano de Deus? Todas as peregrinações de Maria a conduzem até aos pés da cruz do seu Filho. Aí vive a (com)paixão, participando intimamente no seu sofrimento. Não desfalece nem se afasta: permanece fiel. E, no mais profundo desta dor, já brilha a luz da esperança, que se manifestará plenamente na Ressurreição. Por debaixo desta peregrinação de dor corre, como um rio profundo, uma alegria imensa que brilhará em todo o seu esplendor na Ressurreição. Ela sabe, com a certeza da fé, que o seu Filho, na cruz vence o pecado e a morte e cumpre o Plano do Pai em reconciliar todos os homens com Ele.
Também nós, ao subir a este santuário, trazemos a nossa vida, as nossas alegrias e preocupações. E aqui encontramos em Maria um refúgio seguro. Como escreveu o Papa Bento XVI: “À sua bondade materna e bem assim à sua pureza e beleza virginal, recorrem os homens de todos os tempos e lugares do mundo nas suas necessidades e esperanças, nas suas alegrias e sofrimentos, nos seus momentos de solidão mas também na partilha comunitária; e sempre experimentam o benefício da sua bondade, o amor inexaurível que Ela exala do fundo do seu coração.” (Deus Caritas est, n. 42)
Que a Senhora da Piedade nos acompanhe no nosso caminho.
António Domingues, pároco da Unidade Pastoral da Lousã
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