Já são mais de 60 anos dedicados ao jornalismo e a desenhar. E não é por passar o tempo a fazer bonecos que não deve ser levado a sério. Como se não bastasse, tem este quinzenário colado à pele. O Trevim esteve à conversa com Zé Oliveira, o pai espiritual do Broncas, personagem alter-ego do Zé Povinho, que, quinzenalmente, atesta de humor a última página deste jornal.
Quando é que caíste no caldeirão do desenho?
Os meus primeiros rabiscos, que duraram 40 ou 50 anos, mas acabaram por desaparecer, são dos meus seis anos. Lembro-me que um deles era um homem a apanhar peras, colorido a lápis de cor.
Foi aí que percebeste que estavas condenado a desenhar até não poderes mais?
Ainda não. Desenhava para meu único deleite, ainda sem imaginar que o desenho poderia ser uma carreira. Criava bonecos com o mesmo espírito com que amigos meus se entretinham a fazer saltar uma bola de borracha. E ia criando uma grande admiração perante os grandes artistas que publicavam nos jornais. Tenhamos em conta que a televisão se iniciou em Portugal quando eu tinha 11 anos e cinema era coisa fora do alcance de um garoto de aldeia, como era eu. E telemóveis ou computadores, ainda ninguém sonhava. Isso ajuda-nos a perceber o fascínio criado pelas imagens da imprensa de então.
Que tipo de criança eras tu?
Era um garoto metido comigo próprio, mas ao mesmo tempo acumulando um fascínio pela comunicação. Porquê? Como era filho de um casal de trabalhadores do caminho de ferro, fui tendo uma vida um tanto nómada. Com cerca de um ano de idade, vim da aldeia de Cavadinha (freguesia de Urqueira e concelho de Ourém), para a passagem de nível da Barosa, Linha do Oeste, na estrada antiga que liga Leiria à Marinha Grande; e seguimos dali para Reveles, aldeia de Montemor-o-Velho, onde permaneci até aos três anos de idade. E, por estranho que pareça, vem dessa altura a minha primeira manifestação de interesse para com os jornais. Explico: a passagem de nível onde minha mãe abria e fechava cancelas para a passagem do comboio, era adjacente ao apeadeiro. E ali ficava, todos os dias, um maço de jornais ‘O Século’, lançado para a gare pelos ferroviários do vagão de mercadorias, que era, de seguida, levantado pelo senhor da mercearia local, para distribuição em sistema de “assinatura”. Certa vez, além do maço correto, ficou também outro, que se destinava sabe-se lá para onde…
Ninguém procurou os jornais extraviados, que foram ficando lá por casa. E, como os diários perdem rapidamente a “validade”, dias depois já os meus pais me deixavam desmanchar o maço, coisa que me permitiu comparar os exemplares entre si. Eu, que não sabia ler, mas sabia contemplar as fotos e os grafismos dos títulos, achei aqueles jornais demasiado parecidos uns com os outros.
Passados uns dias, viajávamos de comboio para algures. E na viagem, como era habitual naquele tempo, viajava, de carruagem em carruagem, um vendedor de jornais. O meu pai fez-lhe sinal de que ‘viesse cá’, mas eu adverti: “Ó pai, não compre ‘O Século’, porque os Séculos são todos iguais!”
Colaboras com o Trevim desde o 1.º dia. Como qualificas a tua vida conjugal com este jornal?
O Trevim é como se fosse um filho meu. Assisti à gestação dele, participando dos entusiasmos com que era delineado durante as viagens diárias de comboio Lousã-Coimbra e também em reuniões que houve na Lousã. Eu, que residia em Miranda, já publicava regularmente como redator e desenhador de humor na imprensa de Lisboa e de Coimbra. E namorava com uma lousanense. Portanto, foi muito natural a minha inclusão no grupo capitaneado pelo saudoso Pedro Júlio Malta.
Repito: é como se fosse um filho. A nossa relação, com muitas alegrias e poucos arrufos, é para toda a vida. Só a morte nos há de separar. A minha, naturalmente.
O Broncas é o teu alter ego. De onde veio a inspiração?
O Broncas é uma espécie de Zé Povo. A “filosofia” dele, absorvi-a nas aldeias por onde fui criado em criança, e por onde trabalhei muito, como topógrafo.
A sua fisionomia é a de uma senhora de condição humilde, analfabeta, que residia no Montoiro, aldeia de Miranda do Corvo. Tinha um filho em Lisboa, que lhe escrevia de vez em quando, e era a mim que ela recorria para lhe ler as cartas e lhes responder. Como eu viera de fora havia pouco (de uma aldeia transmontana), era mais seguro do ponto de vista da confidencialidade. Era detentora de um dente único, roliça de corpo e também de bochechas, tal qual o Broncas. Não sabia ler, mas não era parva.
O humor gráfico ainda está aí para as curvas ou é melhor passar uma borracha no assunto?
A minha vida, que já não é curta, tem-me permitido testemunhar várias crises nessa matéria. E já aprendi que é o Humor que nos salva! Vivemos tempos muito cinzentos, com crises de vergonha, de ética, verdade, respeito, civismo, sinceridade, cidadania… Se deixamos desaparecer o humor, ficamos sem nada! Jornais sem humor gráfico são uma tristeza!
Enquanto desenhador, com mais de 60 anos de carreira, ainda há alguma coisa que ainda não tenhas feito?
Já desenhei caricaturas em stands de automóvel, feiras industriais, confraternizações de amigos, casamentos, batizados, etc… Mas ainda me falta animar divórcios e funerais.
És um dos caricaturistas mais solicitados pelos estudantes universitários. Hoje, a Inteligência Artificial também já caricatura e fá-lo num abrir e fechar de olhos. Não receias ir para o desemprego?
A atividade da Inteligência Artificial nessa matéria, é sintoma da profunda ignorância em que, nestes assuntos extracurriculares, vive grande parte da academia. Uma caricatura, se for bem conseguida, é um retrato mais psicológico do que fisionómico. A fisionomia é um mero suporte que o autor utiliza para criar uma versão irreverente da pessoa que ali tem. Se ele não sente a pessoa, se não troca umas palavras com ela, se não lhe descobre as subtilezas do olhar, do falar, os trejeitos dos lábios, não terá condições para fazer uma caricatura eficaz. A máquina não sente.
0 Comentários