Água e serrania agreste, eis o cenário da minha infância.

Invernos com a neve a impor-se e os lobos a andarem por perto.

Maria Laranjeira

Eu tinha umas galochas vermelhas e enterrava-as no branco fofo da intempérie, de casa até à escola, onde umas botas aconchegantes me esperavam.

Verões de muito calor, recolhida à sombra, com minha irmã, a inventar perfumes de alfazemas e rosas, colhidas nos nossos jardins. E foi tudo tão sublime, ali!

O mundo dos sentidos sempre deu o mote à minha existência e quando cursei Filosofia, com subespecialidade em Psicologia, sentia falta de algo menos racional… Mas a minha vida profissional seguiu satisfatoriamente. Que o digam, não os rankings, embora possam falar de êxito, mas os alunos, a maior parte dos quais, meus eternos amigos.

Paralelamente ao ensino, fiz uma carreira de algumas décadas, nas Artes Plásticas, sendo conhecida em pequenos meios, a partir de dezenas de exposições individuais e colectivas.

Maria Laranjeira nasceu em 1957 em Montalegre

Vim viver para a Lousã, por opção, há vinte e dois anos, por vezes gostando de aqui estar… É que é dentro de portas de casa que me sinto mais feliz, sentada na varanda a olhar a serra, cozinhando, lendo, escrevendo, construindo arte(s).

Vivo intensamente o que os cinco sentidos me facultam. Daí o meu gosto pelas artes visuais. Daí o meu gosto pela música. Daí o meu gosto pelos aromas, especialmente por perfumes envolventes e frutados.

Daí o meu gosto pela gastronomia do mundo, mesmo quando sou eu a tentar executá-la na minha cozinha ou a deliciar-me com fruta sumarenta: Tangerinas? Mangas? Maracujás? Ai o trincar daquelas sementinhas!!!

Daí o meu gosto pela maciez das coisas, colocando, em primeiro lugar, a das orelhas da minha cadela Bonnie. Autêntico veludo…

Sou dada à comunicação intensa, mas também ao recolhimento. Sou alegria, mas também nostalgia.

Salvo raras excepções, a Lousã traz-me, em relação a quem cá habita, sorrisos e simpatia, talvez espelho dos meus, ou vice-versa.

Mesmo com um rico grupo de amigos, quero destacar, pela entrega, pela comunhão de ser, por me conhecerem tão bem que me bastaria o silêncio, Fernanda Brito e Aristides Adão. Podemos encontrar-nos amiúde ou não. O encontro é sempre no minuto depois e o adeus é sempre um até já.

Há, entre nós, não uma consanguinidade, mas uma espécie de “consensibilidade”.

Por fim, fazendo um balanço do ano que se foi, e voltando à minha infância, refiro a perda irreparável que tive, com a partida da minha prima Belinda Ralha, a menina das alianças do casamento dos meus pais, e minha amiga das confidências em passeios ao Senhor da Pedra, partida um pouco superada com o nascimento do meu sobrinho-neto, Simão, que me dará as alegrias e as ilusões que, só por mim, já não teria.

Maria Laranjeira

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