No dia 21 de maio de 1945, logo após o fim da II Guerra Mundial, os agricultores das Gândaras revoltaram-se contra o corte das videiras americanas imposto pela ditadura de Salazar.
Oitenta anos depois do levantamento, de que resultaram três mortos, vários feridos, perseguidos, condenados e exilados, marcando para sempre a história dos lugares que mais tarde se constituíram como sexta freguesia do concelho da Lousã, importa honrar a memória destas vítimas do regime autoritário.
Em 1995, na edição de 18 de maio, o Trevim assinalou o 50º aniversário dos acontecimentos, publicando uma longa reportagem, de primeira página e centrais, com testemunhos de alguns protagonistas, todos agora falecidos.
O trabalho fez a manchete do número 632 do quinzenário: “Insurreição popular nas Gândaras contra corte das videiras foi há 50 anos – Em defesa do americano“.
O jornalista Casimiro Simões, então diretor do Trevim, entrevistou sobreviventes como Ivo Ferreira, que ficou para sempre com incapacidade física grave e que foi depois zelador das ermidas da Senhora da Piedade, o comerciante Manuel Vaz, então correspondente deste jornal nas Fontainhas, e Manuel Lopes, que emigrou muito jovem para Angola, tal como o seu primo José Bento (Zé da Mercedes), que abalou com a família para a Argentina, tornando-se produtor de hortícolas nos arredores de Buenos Aires.
Pai da enfermeira Amélia Lopes, Manuel Lopes teve um papel preponderante na reconstituição dos factos.
“O povo das Gândaras, num gesto espontâneo em defesa da terra, da honra e das videiras americanas, revolta-se contra forças da GNR e funcionários do Estado (…). A insurreição acabou em tragédia: três mortos – um dos quais militar –, vários feridos, presos e perseguidos”, escreveu Casimiro Simões, contando que, segundo Ivo Ferreira, “mais de 200 ou 300 pessoas” se envolveram nos incidentes.
Entre a população, morreram Manuel Rodrigues (Manuel Zabela) e Jerónimo Bento, irmão de José Bento. O guarda Manuel Vitorino também pereceu numa luta com Zabela.
O soldado, cujo retrato figura numa sala da GNR da Lousã, era pai da cabeleireira Irene Vitorino e de António Vitorino, que foi dono da Leitaria Império, na rua do Comércio.
Uma irmã destes, Emília Vitorino, recordou na altura que a mãe, Maria Rosa, de Alfocheira, “passou dias difíceis para criar oito filhos, a mais nova com quatro anos”.
Dados da reportagem de 1995 vieram a ser incluídos no processo de candidatura das Gândaras ao estatuto de freguesia, apresentado pela Câmara Municipal na Assembleia da República. O Trevim não foi citado nesses documentos.
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