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FOGO QUE ARDE II – A causa primeira e o primeiro incêndio

Por que razão voltará o manto vegetal da Serra da Lousã a arder? Não há uma única, mas são várias as causas. A principal, que não é muito conhecida, resulta do plantio em extensão do pinheirobravo levado a cabo nos anos trinta e quarento do século passado. Sim, porque as serras do sistema central, que vem desde Monsanto, Montejunto, Aire, Candeeiros, Sicó, Lousã, Açor e Estrela, eram, em geral, cobertas de mato e apenas nos vales dos ribeiros e rios nasciam as árvores tradicionais ou autóctones (castanheiro, cerejeira, carvalho, sobreiro, freixo, oliveira e pouco mais).

Foi o Estado Novo, na sua pujante fase inicial, que dinamizando os Serviços Florestais, mandou proceder ao plantio massivo nas partes mais altas dessas serras, que eram, em grande parte, baldios. Fê-lo, essencialmente, para criar emprego e para controlar as enxurradas de Inverno, que, muitas vezes, assumiam efeitos destrutivos graves. O financiamento resultou, em boa parte, dos fundos gerados pelas contribuições pagas às recém criadascaixas de previdência, que, naturalmente, ainda não tinham pensões a seu cargo. Mas, a estadualização dos baldios,obstando à roça dos matos e reduzindo o espaço pastoril criou descontentamentos e revoltas. [Quem desejar confirmar, pode ver a Lei n.º 1884, de 16 de março de 1935 e o livro de Aquilino Ribeiro, Quando os Lobos Uivam, de 1958).

O plantio intensivo de quilómetros e quilómetros de pinheiro-bravona nossa Serra mãe, foi acompanhado, para  harmonizar a paisagem, do cultivo de algumas bonitas árvores exóticas, como o cedro, o eucalipto e a acácia, (que segundo se dizia, provieram da Austrália!). Anote-se, quanto ao eucalipto, que já os havia cá por baixo, mas apenas a servirem de para-raios junto das casas senhoriais. E, já agora, quanto às acácias, mantiveram-se lá na serra durante umas décadas lembrando-nos com o seu intensodoirado que o fevereiro havia chegado.

Como se aludiu, a plantação e, depois, o desbaste e o corte do pinhal, para além da construção de acessos, deram trabalho a centenas de homens que, em certos períodos, diariamente, subiam a Serra, pela madrugada e, usufruindo já de horário de trabalho, dela desciam, de segunda a sábado, recebendo, pontualmente, de semana à semana, à razão de uns quinze escudos por dia efetivo de trabalho. Foi assim até ao fim dos anos cinquenta.

Mas foi neste pinhal, entretanto tornado intensivo e não obstantese encontrar bem cuidado, que deflagrou o primeiro grande incêndio na Serra da Lousã. Ocorreu na zona da Urtiga (agora, sítio do lançamento de parapentes, ao alto de Vilarinho).Verificou-se ainda nos anos quarenta e teve resultados funestos e memoráveis em virtude da morte de dois pastores, que pereceram queimados, dentro de um velho castanheiro já esventrado (que bebia das frescas águas do ribeiro que mais acima tinha a sua nascente).

Esperamos continuar com outras causas.

Alcides Martins

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Autor: Jornal Trevim

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