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FOGO QUE ARDE IV – A terceira causa: as Comunidades Europeias

Como se viu, o mato da nossa Serra mãe passou a matagal. E, este, lampeiro, desceu para o sopé e começou a espalhar-se, sorrateiramente, por todo o vale do Ceira e, hoje, só não tinge as margens do Rio e dos seus afluentes de maior dimensão. Excetuando as localidades e as estradas quase tudo é matagal, restando ainda algumas zonas de pinhal ou de olival, para além dos eucaliptos (que também haverão de entrar nesta historieta). As terras (usando esta palavra no sentido vulgar de antanho, isto é, áreas de cultura agrícola ou arvense) são hoje poucas e só ocupam uma pequena parte do território mais fértil. O resto são sortes, ou seja, áreas de mato e pinheiros, que, ardidas, dão origem a mais matagal.

Esta profunda mudança, que para uns será decadência e para outros progresso, foi provocada pelas Comunidades Europeias. Sim, pela CEE, agora União Europeia.

Lembrando, recorda-se que  em resultado da Guerra Civil de Espanha e da II Grande Guerra, com exceção de Portugal e da Suécia, a maior parte da Europa ficou destruída. Foi devido à ajuda americana (Plano Marshall), de 1948, que começou a erguer-se, vindo os países do centro a criar a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, em 1951. E, meia dúzia de anos depois, face ao êxito alcançado, os mesmos Estados fundaram a Comunidade Económica Europeia (e a CEEA) cujo grande objetivo era estabelecer um amplo mercado comum no centro da Europa. O desenvolvimento económico ultrapassou todas as expetativas. E a França, em primeiro lugar e, depois, os outros começaram a ter falta de mão obra, nomeadamente nas profissões menos qualificadas. Para colmatar a brecha os salários começaram a subir e a atrair os “hermanos” de uma Espanha miserável e logo depois luzem aos portugueses.

Os do nosso Concelho, em grande parte, trabalhavam a dias na agricultura (cá não havia conto, nem jorna) e na Serra. Os mais novos já eram empregados nas serrações (na Nova Empresa, ainda movida a vapor e nas dos Gatos (já a eletricidade), para além de uns felizardos com emprego nas fábricas do Boque, do Prado e do Carvalho e alguns (com bons padrinhos) na Elétrica das Beiras.

Foi a emigração, que deixou de ser esporádica (para Lisboa, Brasil, América e África) para ser massiva para a França. Os homens aí até à meia-idade, de um dia para o outro, deixavam de se ver e só quando chegavam ao destino é que se sabia que estavam em Paris.

Passa a haver grande escassez de mão de obra para o duro trabalho na agricultura (e na floresta). E, a pouco e pouco, as terras (de cultivo), a começar pelas que se situavam nas aldeias da Serra e no seu sopé, deixam de ser amanhadas. Passam a pousio e depois a mata desordenada. Ainda em 61, começa a Guerra em Angola, que passa a levar os mancebos para o perigo, mas também para o conhecimento e a cultura, impedindo a volta ao trabalho braçal da agricultura medieval de então, em geral, destinada à subsistência.

É, assim, que o último rebanho (de cabras) de Vilarinho (o do Ti Camilo) deixa de ter pastor e se vão as bocas ceifeiras e se calam os cães e os chocalhos. Começa a deixar de haver mato e passa a haver matagal.

Alcides Martins

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Autor: Jornal Trevim

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