Por que falhou a coordenação — e porque precisamos agir agora
José Augusto Rosa Casimiro – Arquitecto, Berlim / Vilarinho – Lousã
A Serra da Lousã, com as suas encostas verdejantes, aldeias de xisto e lugares algo esquecidos e deixados ao abandono, é um símbolo de identidade, de beleza e de vida para todos nós que aqui vivemos – ou que regressamos sempre que podemos.
No meu caso, este ano é já a quarta vez que volto, e não pretendo quebrar a tradição de passar o Natal na terra que me viu nascer — a mesma onde, um dia, espero poder desfrutar com tranquilidade o tempo que ainda me couber viver.
Mas, neste Verão, essa serra tão nossa voltou a ser palco de destruição e de desespero. O fogo, impiedoso e veloz, varreu zonas onde a natureza e as pessoas convivem há séculos, deixando um cenário de dor e impotência.
Os incêndios que devastaram as encostas da Lousã este ano deixaram uma ferida que vai além da paisagem queimada. Mostraram – mais uma vez! – a falta de coordenação entre as entidades responsáveis pela prevenção e pelo combate aos fogos florestais.
Onde estavam, nesse momento, os meios aéreos que deviam proteger a serra? Porque razão não se encontravam no aeródromo da Lousã, infra-estrutura especificamente preparada e disponível para servir de base às operações de emergência deste género?
No dia 15 de Agosto, quando o fogo começou na zona do Candal, segundo o que me foi relatado, apenas um único helicóptero actuou na parte norte da serra, realizando duas curtas intervenções – uma na Póvoa do Fiscal e outra perto da Igreja Matriz de Vilarinho – antes de se deslocar novamente para o Candal, para sul, em apoio a outras frentes.
O resultado foi uma Lousã praticamente sem meios aéreos, enquanto as chamas se expandiam em direcção às encostas e povoações mais vulneráveis, nomeadamente a Póvoa do Fiscal e Vilarinho.
A ausência de resposta imediata custou tempo – e tempo, em situações de incêndio, é o que separa a contenção da catástrofe! A coordenação falhou por completo. Seria necessário saber quem assumiu a responsabilidade no comando das operações e que instituições – Protecção Civil, ICNF, Forças Armadas, ou a Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil – tomaram a decisão de retirar ou redistribuir os meios, bem como a responsabilidade pela execução de pelo menos um contrafogo na encosta oposta ao Candal, do lado de Vilarinho, que, segundo moradores e técnicos citados aqui no Trevim, agravou o incêndio e provocou reacendimentos. Estes factos foram confirmados e publicadas nas edições 1568 a 1570, onde também se apontam falhas de articulação entre as entidades envolvidas e a ausência de meios aéreos de reforço durante as horas críticas do combate.
A Serra da Lousã precisa de meios aéreos permanentes, aqui estacionados, durante toda a época de risco!
Os bombeiros em terra fazem o que podem, mas nas zonas altas e de difícil acesso a intervenção terrestre é limitada. E, como sabemos, os aviões e helicópteros só operam durante o dia. Depois das 20:00, o fogo continua – durante a noite inteira, se as condições assim o facilitarem – mas o combate pára.
É uma realidade inaceitável – um drama que se repete ano após ano – e que não pode continuar a ser aceite como inevitável, num tempo em que a ciência e a tecnologia já nos oferecem meios para o evitar.
O impacto destes incêndios vai muito além de árvores queimadas. A fauna da serra – veados, javalis, raposas, águias, corujas, lebres e inúmeras outras espécies – foi dizimada ou forçada a fugir, perdendo o seu habitat e quebrando equilíbrios ecológicos que demoraram décadas a consolidar-se.
Animais domésticos e de criação, como cabras, ovelhas e cães, ficaram encurralados ou simplesmente desapareceram, deixando famílias destroçadas.
Casas, armazéns e currais arderam com tudo o que continham – ferramentas, móveis, fotografias, recordações de gerações. Para muitas pessoas, não foi apenas a floresta que se perdeu, mas a própria vida construída com esforço, reduzida a cinzas.
É esta dimensão humana e natural que raramente entra nas estatísticas, mas que marca profundamente o que somos como comunidade.
Uma breve reflexão, antes de avançar: Muito se tem dito que o mal dos incêndios reside nas plantações de eucaliptos. No entanto, segundo a minha observação directa e de moradores locais, o incêndio de Agosto não teve origem nos eucaliptos, nem estes foram os principais responsáveis pela propagação das chamas. O que ardeu, na sua maioria, foi pinhal.
De facto, segundo dados do Plano de Gestão da Serra da Lousã, a área florestal da serra é “ocupada sobretudo por pinheiros”, sendo o eucalipto apenas uma espécie complementar ou de reconversão pontual. Embora não existam dados oficiais específicos sobre o perímetro exacto do incêndio, fica a lacuna e o convite à investigação: é urgente conhecer com rigor a composição florestal para podermos agir melhor em futuros cenários de fogo.
Esta constatação sugere que o problema estrutural poderá estar menos na espécie e mais na ausência de gestão florestal activa. O eucalipto, com o seu ciclo de corte de cerca de oito anos e capacidade de regeneração rápida após o fogo, pode até oferecer uma vantagem económica e, sim, ecológica, quando comparado com o pinheiro-bravo, que necessita de mais de meio século para atingir maturidade.
O essencial é garantir equilíbrio e ordenamento, evitando monoculturas sem controlo e promovendo mosaicos florestais bem geridos. Não vou aprofundar aqui essa temática, já que o propósito central deste texto é apontar caminhos para uma estratégia moderna e eficaz de prevenção e combate aos fogos florestais na Lousã – e no território nacional. Mas não queria deixar de a referir.
Assim, chegando ao essencial, e porque é de soluções práticas e objectivas que precisamos, defendo uma medida concreta e exequível: A criação de uma esquadra permanente de drones de combate a incêndios, estacionada no aeródromo da Lousã!
Equipados com sistemas de navegação autónoma e câmaras térmicas, estes drones podem operar 24 horas por dia, detectar focos no momento em que surgem e agir em conjunto, em modo de “enxame”.
A sua autonomia e rapidez permitiriam uma primeira resposta – decisiva! – antes que o fogo se torne incontrolável. O investimento em tal tecnologia é viável. Por um valor muito inferior ao custo de um único avião anfíbio, ou de um helicóptero, é possível adquirir dezenas de drones.
O financiamento pode vir de programas europeus e nacionais como o PRR, o Horizonte Europa, o Portugal 2030 ou o Fundo de Inovação para a Transição Climática. Trata-se de uma solução sustentável, inovadora e perfeitamente adequada ao relevo e às florestas de Portugal.
Exemplo internacional inspirador é o programa PEELIKAN, na Alemanha, cujo centro de desenvolvimento em Ludwigsfelde, perto de Berlim, visitei no mês passado.
O projecto já produziu vários protótipos para ensaio e desenvolvimento, e espera-se que atinja maturidade tecnológica e comercial dentro de cerca de dois anos. Mais informações disponíveis aqui: www.peelikan.de/en.
Importa aliás mencionar que em Portugal já existem empresas especializadas na concepção e produção de drones, certamente capazes de desenvolver drones pensados não para destruir, mas para proteger, adaptados ao transporte de água ou agentes químicos de extinção, sem necessidade de recorrer ao estrangeiro.
São exemplos – sem pretensão de exaustividade – a UAVision Aeronautics (Alenquer), Beyond Vision (Aveiro), NexxUAV Drone Solutions, Lda (Castelo Branco), POST77 (Oeiras), Eliot AAM (Évora), Aeroprotechnik (Viseu), Connect Robotics (Oeiras), Stratosphere S.A. (Guimarães), Ghostysky (Figueiró dos Vinhos) e, por fim, a destacar, a Tekever, sediada nas Caldas da Rainha – empresa de tecnologia aeroespacial e sistemas de drones, um dos sete “unicórnios” portugueses, exemplo da capacidade inovadora e de crescimento deste sector a nível internacional.
A competência destas empresas mostra que também em Portugal podemos unir capacidade técnica e visão estratégica para criar soluções próprias. Mas a tecnologia, por si só, nada muda sem decisão e coragem política. É nas autarquias que o futuro começa – ou se adia. Com a transição de Luís Antunes para Victor Carvalho como Presidente da Câmara Municipal da Lousã, abre-se uma nova etapa na liderança do município. Esta mudança – assim muito o espero – representa um momento de renovação política e administrativa. Seria uma excelente oportunidade para colocar a protecção da serra e a inovação tecnológica no centro de uma política municipal sólida de prevenção e resposta a incêndios, baseada na ciência, na coordenação e na presença constante de meios.
A serra é o coração do nosso concelho. Protegê-la exige não apenas memória do que ardeu, mas visão e coragem política para o futuro. Que esta tragédia sirva, ao menos, para iniciar uma nova era de prevenção inteligente – pensada na Lousã, a partir da Lousã, para a Lousã, para Portugal e, talvez, até para além das fronteiras lusas.
* Nota: texto redigido segundo a ortografia portuguesa anterior ao AO90
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