No que tange à nossa temática, o 25 de Abril, abrindo as liberdades política e até social, veio permitir, para além do mais, o restabelecimento do municipalismo, a valorização das freguesias e a gestão dos baldios. Foi o Decreto-Lei n.º 39/76, de 19 de janeiro, que promoveu a devolução de baldios às comunidades locais, ou seja, aos seus compartes ou vizinhos dos povoados, para que deles pudessem usufruir. Contrariava, portanto, a florestação do velho Estado Novo de que já falámos. Mas, lendo esta lei (revogada em 1993), em lugar algum se vislumbra alguma frase ou palavra que tenha a ver com incêndios e sua prevenção. Contudo, eles já se iam verificando, embora em número reduzido e com dimensão e prejuízos limitados.
A crise económica que se gerou, com a inerente quebra da produção, deu origem a duas intervenções de apoio financeiro a Portugal pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), em 1977 e 1983. É certo que desacelerou o abandono dos campos que, com intensidade, se havia iniciado nos anos sessenta. Contudo, não travou a emigração que se manteve, agora mais para a Alemanha (Ocidental).
Mas a grande mudança do setor primário para o setor secundário, em Portugal e no nosso Concelho, veio a verificar-se na sequência da adesão às Comunidades Europeias, que, por causa da Espanha, apenas se concretizou no início do ano de 1986. No entanto, antes, a partir do pedido, já havia sido criado um regime especial de pré-adesão, que a partir de 1980 fez jorrar centenas de milhões de Ecu, nomeadamente para apoios a empresas, à formação profissional e à construção de infraestruturas. É que a Europa Central (capitalista, como se dizia), receou mesmo o avanço da russificação a Ocidente e não olhou a meios para motivar a democraticidade da Península).
Foi neste período que a vila da Lousã, as suas zonas limítrofes e até as sedes das freguesias do Concelho se expandiram, como não se expandiam há séculos (repito, há seculos). E, aproveitando o então operante Ramal da Lousã, passaram até a ser subúrbios de Coimbra. Também o ensino, deixou de ser apenas o primário, para o politécnico e o universitário se tornarem acessíveis. O emprego e a sua qualidade fizeram melhorar os rendimentos. Tudo (ou quase tudo) maravilhoso.
Na verdade, como não há bela sem senão, deixou de haver gente para trabalhar, quer na agricultura, quer na silvicultura, quer nas industrias da madeiras. Ainda se tentarem modernizar, mas o diminuto dimensionamento das propriedades e até alguns costumes medievais que ainda perduravam não permitiram a atualização.
Hoje, segundo o ChatGPT, o Concelho tem 138,4 Km2, e apenas uns 23,8, ou seja, 17,2% são de áreas agricultadas. Situam-se ao longo do Ceira, de Serpins a Foz de Arouce e das suas ribeiras serranas… e do Rio Arouce, claro. O resto, ou seja, cerca de 115km2 estão, desordenadamente, de pinheiral, eucaliptal ou, pior ainda, de matagal, ou seja, prontos para dar combustível aos próximos grandes incêndios.
Como se poderá pôr cobro a esta fatalidade? Continuaremos.
Alcides Martins
Discordo mormente da questão colocada a final. É que uma fatalidade é algo inevitável. Senão vejamos: para que uma combustão ocorra, torna-se necessário que simultaneamente existam: um combustível- aquilo que arde ou pode arder, um comburente- no caso o oxigénio atmosférico- e uma fonte de ignição. E estes três elementos sempre estarão presentes na natureza. Ademais, atenta a segunda lei da termodinâmica, a entropia (desordem) do universo aumenta constantemente.