Nos últimos tempos, descobriu-se um novo fetiche pedagógico: a literacia. Temos literacia financeira, literacia digital, literacia ambiental, literacia mediática… Há literacia para tudo o que é gosto (e muito bem), exceto para aquilo que deveria vir antes de todas: a capacidade de pensar criticamente.
Parece-me que se decidiu começar a construir a casa pelo telhado. Em vez de consolidar os alicerces do pensamento crítico, aglutinamos atividades especializadas que prometem “preparar” os jovens para o mundo moderno. Temos workshops sobre investimento, sessões sobre poupança, programas sobre empreendedorismo precoce. Tudo isso é muito moderno e responsável.
Mas convém esclarecer um ponto: como jovem, não tenho qualquer nostalgia de um tempo em que se saía da escola sem saber distinguir juros simples de compostos e se aprendia o básico das finanças da maneira tradicional: errando caro. Entre isso e uma aula de matemática económica, a escolha é evidente.
O problema não está aí (nem nos jovens). Está em pensarmos que é por aqui que começamos e que esta é a parte difícil – ou, vá-se lá saber, a única parte.
Hoje em dia, celebra-se com entusiasmo quando um aluno sabe debitar o que é inflação, distinguir ativos de passivos ou falar de diversificação de investimentos. No entanto, raramente nos indagamos sobre algo mais elementar: se esse mesmo aluno consegue avaliar criticamente um argumento ou perceber quando um número é usado para vender uma narrativa conveniente, e distinguir uma promessa política impossível – embora curiosamente sempre muito aplaudida – de uma proposta séria; ou até reconhecer quando o entusiasmo fácil de um discurso o empurra, com grande convicção e ainda maior empáfia intelectual, para os extremos políticos.
Estamos, em suma, a ensinar jovens a preencher folhas de Excel antes de lhes ensinar a pensar.
Este fenómeno tornou-se uma espécie de moda no ensino. A literacia financeira entrou no vocabulário político como um chavão pactuado, tecnicamente respeitável e politicamente confortável. Ninguém se opõe a ensinar jovens a poupar ou a compreender juros compostos. Pelo contrário, é apresentado como sinal de modernidade e responsabilidade.
Mas esse entusiasmo tem, geralmente, um sabor a superficialidade.
Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), a literacia financeira depende fortemente da capacidade de leitura, de interpretação de informação e de raciocínio quantitativo. Ou seja, não é um conhecimento isolado. Sem essas bases, a literacia financeira transforma-se facilmente num conjunto de conceitos decorados, mas mal compreendidos (se compreendidos sequer).
E é precisamente aqui que reside o busílis da questão.
Um jovem pode aprender o que significa inflação (o aumento generalizado dos preços ao longo do tempo). Pode até, se formos otimistas, compreender o efeito que isso tem sobre o poder de compra. No entanto, não significa que esteja preparado para analisar um debate económico ou para reconhecer uma promessa politicamente impressionante e economicamente impossível.
Pode-se saber o que é um défice público e, ainda assim, não estranhar quando alguém promete baixar impostos, aumentar a despesa e equilibrar as contas públicas ao mesmo tempo (uma combinação fascinante que, por alguma razão, só costuma funcionar em discursos políticos particularmente entusiasmados e barulhentos).
E isso não acontece por falta de inteligência dos jovens portugueses. Pelo contrário, acredito que somos muito inteligentes. E assim mostram as evidências. Os resultados de Portugal no Programme for International Student Assessment (PISA) têm registado progressos relevantes nas últimas décadas, demonstrando capacidade de aprendizagem e adaptação. O problema não é o potencial dos alunos. É a arquitetura das prioridades educativas: Em vez de fortalecer as competências que permitem compreender o mundo, ligadas ao que chamam, por sinal, literacia crítica, acumulamos camadas de conhecimento especializado que surgem apenas como “mais uma”. O resultado é um sistema que tenta resolver problemas complexos adicionando conteúdos específicos, sem consolidar primeiro as bases intelectuais que permitem compreendê-los.
É como tentar ensinar navegação astronómica a quem ainda não sabe orientar-se com uma bússola, e depois ficar surpreendido quando o barco acaba inevitavelmente à deriva.
A consequência? Uma sociedade onde os jovens parecem gestores bancários, mas não conseguem avaliar criticamente discursos políticos, que se torna particularmente vulnerável à retórica fácil. O debate público deixa de ser um confronto entre ideias e transforma-se numa competição entre narrativas.
O risco, portanto, não é ensinar literacia financeira aos jovens portugueses. O risco é acreditar que isso basta. Porque a democracia não depende apenas de cidadãos que dominem conceitos económicos. Depende, antes, de cidadãos capazes de, no mínimo, reconhecer quando uma promessa política desafia as leis básicas da realidade.
Ensinar jovens sobre dinheiro é importante. Mas antes disso, talvez devêssemos garantir algo mais simples e muito mais exigente: que saibam compreender o mundo que lhes prometemos explicar.
Afonso Teixeira
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