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Do pavor às cobras ao medo das árvores

Casimiro Simões

Um arrepio percorria-nos a espinha dorsal sempre que um ligeiro restolhar perturbava o silêncio de brasa nos caminhos e veredas da infância.
Que bicho seria aquele, à hora da sesta, debaixo das silvas onde mataram uma inofensiva cobra-rateira?
A serpente que tentou Adão e Eva no Éden bíblico, identificada como Satanás, continua a ser diabolizada.
Em Portugal, existe apenas um réptil venenoso, a víbora-cornuda, e os demais não constituem perigo.
Tudo isto para dizer que, apesar das alegações oficiais e técnicas, fiquei chocado com o corte de 13 árvores saudáveis, com mais de 40 anos, no centro da Lousã.
Ainda por cima, associando o abate ao Dia da Floresta, em plena primavera, quando as copas frondosas já estariam repletas de ninhos de aves diversas, como milheiras, verdelhões, pintassilgos e rolas.
Caíam galhos secos, havia fendas no solo depois da tempestade Kristin? É natural.
Estado e autarquias cortam supostos males pela raiz, dizimando árvores úteis à beira das estradas e nos espaços urbanos?
Ou substituindo as de maior porte por outras pequenas ou arbustos?
Na mesma zona, na antiga Quelha da Vaqueira, já houve castanheiros centenários.
Estavam em terrenos privados e foram eliminados para abrir a avenida José Maria Cardoso.
Medo irracional das cobras, a ofidiofobia persiste hoje em contra ciclo com o avanço da ciência.
Em Portugal, o horror às árvores, esse, está ligado a certos mitos urbanos.
Cavalgou a comoção social dos incêndios de 2017, acentuada pelos temporais destrutivos deste inverno.
As árvores também são vítimas das alterações climáticas, não são elas a causa das tragédias.
Vamos acabar com as árvores na antiga Feira dos Bois, na Alameda Carlos Reis ou na Senhora da Piedade, porque ameaçam a segurança de pessoas e bens?
E na Serra da Lousã, por absurdo, cortamos todo o arvoredo para evitar os incêndios?
Precisamos de muitas árvores nas ruas e praças, selecionadas e bem cuidadas, de preferência espécies autóctones.
Não deixemos de cantar o poema que António Victor dedicou à Lousã: “o teu arvoredo murmura em segredo, batendo-lhe o vento”.
Vejamos o exemplo da Filarmónica Lousanense, que transformou o quintal das traseiras num souto acolhedor que dá sombra e castanhas.
É preciso ordenamento florestal e melhor planeamento urbano.
Não tenhamos medo das cobras, nem horror às árvores.

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Autor: Casimiro Simões

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