“São as pequenas lembranças, que nos fazem recordar grandes homens”
Dos registos da nossa razão, ou seja, daquilo que podemos chamar a massa biológica ou intelectual do homem, vamos retirando lembranças de uma terra que é a nossa, do tempo de uma entrega tão imatura, como alegre e salutar. Escrevia-se o primeiro ano da década de 60 do século transato. A nossa passagem laboral ou de “sujeição infantil” pelos Carpinteiros Reunidos, hoje virado Minipreço, viria a privilegiar de certo modo, uma aproximação a várias casas comerciais da nossa vila. Ágil nos pés, era assim nesse tempo de servilismo, entrávamos em trabalho de permuta na casa comercial António Simões Lopes Sucrs e o que víamos ficava registado na câmara substancial da vida… No balcão defronte o Sr. Jaime Simões Lopes, falecido na Lousã em janeiro de 1979, pai do nosso “convidado” de hoje. No balcão esquerdo (vidragem etc.) seu irmão Dr. Laércio, também falecido na Lousã a 24 de setembro de 1985 e que chegou a exercer clínica cá na nossa terra, em finais da década de 10. No piso superior, com vistas para a Farmácia Fonseca, o célebre consultório médico do Dr. Alcino, o “Pai dos Pobres” (1894/1980).
O Dr. António Jorge, como era conhecido entre nós, foi um lousanense de enorme mesura cultural… Com moderação e alguma reciprocidade, fomos deveras privilegiados com a sua fina idiossincrasia e amistosa forma de nos receber. “Entre lá amigo Ramalheiro. Vamos aqui beber um porto, com 70 anos na casca”!… Enviou-nos para a Alemanha uma diversidade de livros e CDs, relacionados com a cultura lousanense e coimbrã, à qual era imensamente ligado. Foi na verdade um lousanense que, embora nascido em “berço dourado”, não ostentava qualquer soberania para nos inferiorizar. Era um “cara-direita”, como nós gostamos de dizer… Exerceu durante toda a sua vida vários cargos culturais, nesta terra que tanto amava. Foi vereador municipal, no quadriénio 1950/1954, vogal do Conselho Fiscal da Companhia Eléctrica das Beiras, fazendo ainda parte posteriormente, do Clube Desportivo, Rádio Clube da Lousã, Sociedade Filarmónica, entre outras associações lousanenses, que não vamos poder aqui especificar, porque foram bastantes. Escreveu alguns livros de elevada relevância para nós lousanenses, entre os quais “O Livro de Família” no ano de 2001, com o qual nos presenteou na Alemanha.
Casou com a doutora Alcina Ferreira Torres (1926/2010), senhora natural de Nogueira / Maia e o casal gerou três filhas: as doutoras Maria José, Maria Cesaltina e Maria Alcina Lopes. Este nosso grande amigo e lousanense partiu aos 98 anos de idade, a 11 de maio de 2019. Um enorme vulto lousanense, a brilhar no Infinito…
Carlos Ramalheiro
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