Homenagem póstuma a Pedro Kalidás realizada no Santo António da Neve, no dia 11 de julho, no âmbito do 30.º Encontro dos Povos da Serra da Lousã. «Em nome da família, quero agradecer esta homenagem ao Pedro Kalidás.
Eis o discurso integral de agradecimento proferido pelo jurista Tiago Kalidás, sobrinho do homenageado, que faleceu em junho aos 56 anos:
Faz para mim todo o sentido que ele seja lembrado aqui, no Encontro dos Povos da Serra da Lousã, ao qual esteve ligado desde a primeira hora.
O Encontro e o Santo António da Neve representam muitas das coisas em que ele acreditava: o encontro das pessoas, a amizade, a convivência, o amor à nossa terra.
Mas eu não queria falar apenas do homem que ajudou a construir este Encontro. Permitam-me, por favor, alguns momentos para falar também do meu tio.
Se tivesse de escolher uma palavra para o descrever, seria ‘generosidade’.
São muitas as boas recordações que guardo do meu tio.
Numa das mais antigas, tenho cerca de quatro anos e chego a casa do meu avô [Luís Kalidás Barreto] quando ele se prepara para sair com os amigos.
Quando percebe que quero pintar com as aguarelas dele, fica ali comigo até eu me cansar de fazer desenhos.
Só depois se vai embora.
Naquele gesto silencioso, deixou os seus planos para depois e fez uma criança sentir que, naquele momento, nada era mais importante.
Eu tinha apenas quatro anos, mas essa memória ficou para sempre.
Em 2016, pedi-lhe que me ajudasse a pintar o palco da Senhora da Guia.
Passámos ali um dia inteiro, em agosto, entre tintas, conversa e muitas gargalhadas.
Entre essas duas memórias, passou quase uma vida.
E ele manteve sempre o mesmo carinho, a mesma disponibilidade e a mesma paciência inexcedível para me aturar.
E eu sei que não sou o único a guardar estas pequenas eternidades.
Cada um dos meus primos leva consigo um gesto, uma aventura ou um momento em que o tio Pedro esteve inteiro e presente.
Essa generosidade estendeu-se também à sua terra, Castanheira de Pera.
Soube honrar o exemplo e a memória do seu pai, seguindo, à sua maneira, o mesmo sentido de serviço à comunidade.
Entregou o seu tempo e os seus talentos à cultura, ao desporto, à vida associativa e à participação cívica.
Fê-lo no Sport, nos Bombeiros, na CERCI e noutras instituições de Castanheira.
Participou também nas estruturas políticas e foi autarca [eleito pelo PS].
Era um bairrista!
Um castanheirense orgulhoso da sua terra, da sua cultura e das suas gentes.
Esse sentido de serviço e de cuidado esteve também presente no seu trabalho.
Teve a felicidade de se cumprir enquanto pessoa através da sua profissão.
No Centro de Acolhimento Temporário de Crianças, no Vilar, pôde colocar ao serviço daquelas crianças o cuidado, o afeto e a firmeza educativa que o caracterizavam.
As crianças adoravam-no e é fácil perceber porquê.
Aquilo que o Pedro foi para as crianças da nossa família foi também para as crianças do Centro de Acolhimento.
Que sorte tiveram por o encontrar.
Mas que sorte teve também o Pedro por poder dar-lhes o melhor de si e receber o afeto verdadeiro que só as crianças sabem dar.
Tinha um lado profundamente criativo.
Era um melómano, um cozinheiro de mão cheia, um pintor talentoso e um fotógrafo de olhar atento e sensível.
Deixou-nos muita obra e muita arte.
Mas a criação mais importante da sua vida foi a família, que construiu ao lado da sua mulher, Elisabete.
E o seu legado mais importante são a Sofia, sua filha, o Ricardo, seu filho, e o Artur, seu afilhado.
Neles permanecem o amor que lhes deu e os valores que lhes transmitiu.
O Pedro Kalidás já não está connosco como antes, mas continua presente em tudo o que nos deu e na forma como tocou as nossas vidas.
Obrigado aos que organizaram esta homenagem e a todos os que hoje aqui estão para o recordar.
Tenho a certeza de que ficaria muito feliz por ver novamente a nossa Serra cheia de pessoas, de música, de amizade e de vida».
Tiago Kalidás
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