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Educação ou estagnação: o que estamos a escolher?

A educação é talvez o serviço mais belo que um Estado pode (e deve) oferecer. Alunos não são máquinas, mas sim futuros cidadãos, que precisam de ser cultos e conscientes. O papel da educação é criar os cidadãos do amanhã. Mas será que estamos realmente a fazer isso? Ou estamos apenas parados na caminhada do conhecimento com ilusões de inovação? Portugal atravessa uma grave estagnação educativa que ameaça o nosso futuro coletivo. Não é apenas uma questão de resultados em rankings internacionais, é o sintoma de um sistema que não valoriza os seus educadores, que não se adapta ao mundo digital e que perpetua desigualdades estruturais entre regiões. Quando um país ignora quem ensina e não prepara quem aprende, condena-se à estagnação social, económica e democrática. É aqui que começa o nosso fracasso.

Os professores foram, durante décadas, a espinha dorsal da educação pública e da mobilidade social em Portugal. Hoje, são desvalorizados e desprestigiados, sentem-se esgotados. A não contagem integral do seu tempo de serviço congelado, a ausência de progressão justa na carreira, e o peso da burocracia no propósito pedagógico, são um bloqueio tremendo e uma desmotivação crónica. Segundo a OCDE (Education at Glance, 2023) a classe docente portuguesa é das mais envelhecidas da Europa, com 45% dos professores do Ensino Básico com mais de 50 anos, e cada vez menos jovens interessados no ofício. Sem atratividade, não temos renovação, e sem motivação não há excelência. Logo o primeiro ponto da estagnação começa aqui, professores desvalorizados produzem contextos educativos mais pobres, onde a exigência e a criatividade se perdem.

Para além disso, a problemática da moda de hoje em dia, o digital. A verdade é que veio transformar o mundo, e veio para ficar. Porém os nossos jovens continuam órfãos de uma formação crítica e ética sobre a utilização do mesmo. A entrada no mundo escolar com acesso ilimitado à informação e conteúdo que não compreendem, faz com que se moldem comportamentos de forma inconsciente nas nossas crianças. A este fenómeno, segundo a UNICEF em 2022, chama-se de “infoxicação”, isto é, sobrecarga de informação. A exposição constante a redes sociais e dispositivos móveis tem vindo a afetar a concentração, saúde mental e literacia das camadas jovens. Para isso, deve-se, de forma imperativa, interditar o uso de telemóveis nas escolas até ao final do terceiro ciclo. A par com esta medida, e consciente que o intuito não é uma proibição abrupta, ensinaremos a usar os meios digitais de forma correta, capacitando os alunos de cidadania digital, combate a desinformação e propaganda,e pensamento crítico, garantir também que as escolas são providenciadas com equipamentos tecnológicos adequados (como os LED), e de professores formados.

Continuando, sou da opinião que a cultura desempenha um papel pivotal na formação cívica e humana dos jovens, mais do que uma disciplina ou área disciplinar, é o pilar de uma cidadania ativa. Não deve, de forma alguma, ser apenas cingida a manuais, desta forma estamos a assassinar as gerações futuras. A falta de divulgação da cultura, de teatro, leitura, artes visuais no quotidiano escolar empobrece o pensamento, sensibilidade e consciência coletiva dos nossos alunos. A Associação Portuguesa de Educação Artística alerta para a negligência de dotação financeira para a cultura, segundo o PORDATA, em 2023, Portugal investe apenas 1% do seu orçamento em cultura, um dos mais baixos da UE. Como consequência, uma educação empobrecida, estagnada, descontextualizada e desinspirada

Por fim, esta estagnação tem geografia. Manifestada na assimetria territorial entre litoral e interior, a estagnação está presente nas nossas vidas. Estudar no interior é muitas vezes estudar com menos professores, recursos e oportunidades. É estudar num meio onde o abandono escolar precoce é maior e o acesso a programas como Erasmus e atividades extracurriculares é mais limitado. Enquanto o litoral se adapta (a custo) à transição digital e pedagógica, muitas escolas do interior ainda lutam com falta de aquecimento, internet ou transportes escolares adequados. Esta diferença perpetua o ciclo: as famílias migram para as grandes cidades, esvaziando o interior e sobrecarregando os centros urbanos, enquanto a educação se torna mais desigual e menos mobilizadora.

Concluindo, a estagnação na educação não se combate com slogans nem com meias medidas, combate-se com ação rápida e eficaz. Precisamos de evoluir e melhorar. Contudo é necessário admitir que as políticas educativas não funcionam sozinhas, mas sim a par com outras políticas públicas de acordo com o contexto socioeconómico do país. Estes quatro pontos, de forma infeliz, não são os únicos que contribuem para a estagnação educativa, desde a extensão desmedida dos programas comparativamente ao tempo letivo, até à falta de tempo familiar, a educação portuguesa sofre. Outros artigos falarão disso. Lembremos-nos, porém, que uma educação melhor fará um Portugal melhor.

Afonso Teixeira

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Autor: Jornal Trevim

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