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As empresas não são o Pai Natal e os jovens não são pedintes

 

Afonso João Teixeira

Há uma ilusão persistente em Portugal que sobreviveu a crises e a governos de todas as cores: a de que a educação ainda é um elevador social. Durante décadas, vendemos aos jovens a ideia de que bastava estudar muito, tirar um curso, e o mercado abriria as portas de braços abertos, talvez até com fanfarra. O problema é que o elevador avariou e ninguém avisa.

O que encontram hoje os jovens à saída da universidade? Não é um mercado de trabalho. É mais uma antecâmara kafkiana onde se exige experiência para quem nunca teve oportunidade de a ter, onde os anúncios de emprego pedem “recém-licenciados com cinco anos de experiência” com uma seriedade desconcertante, e onde o conceito de “estágio” foi generosamente reinterpretado como trabalho a tempo inteiro com salário de part-time.

Bem-vindos à vida ativa, façam o favor de agradecer.

Entretanto, o contrato estável, esse objeto mítico que os nossos pais brandiam como prova de vida adulta, tornou-se uma espécie de unicórnio jurídico (toda a gente o conhece, ninguém o viu de perto). O que ficou no seu lugar foi a arquitetura da precariedade: contratos a termo que se renovam eternamente sem nunca chegar a lado nenhum, recibos verdes para quem tem horários de assalariado, e estágios profissionais encadeados com a mestria de quem conhece bem os limites da lei e da vergonha.

O resultado é previsível: Portugal forma, e a Europa contrata. Os jovens mais qualificados da nossa história são também os mais exportados. Não por falta de patriotismo (essa acusação é tão fácil quanto injusta, para tristeza dos entusiasmados) mas por uma racionalidade elementar: quando o país não consegue remunerar o que produziu, não tem moral para se queixar de quem escolhe ir produzir noutro lugar.

Mas há algo que raramente se diz nesta conversa, e que convém dizer sem medos: os jovens também têm de deixar de esperar que alguém, milagrosamente, lhes construa o caminho. Parte do problema não está apenas nas empresas nem nas políticas. Está numa cultura educativa que durante anos formatou os estudantes para a passividade. Aprendemos a esperar pela chamada, pelo estágio curricular obrigatório, pela bolsa que o professor conhece. Ninguém ensinou a ir buscar. Ninguém ensinou a vender o que se tem. A escola ensinou a esperar, o mercado não espera.

É por isso que o próximo passo não pode ser apenas legislativo. Tem de ser cultural, e tem de envolver as empresas de forma séria, não cosmética. As empresas que reclamam não encontrar talento em Portugal, mas que nunca puseram um pé numa faculdade, que nunca abriram um estágio remunerado com perspectiva real de contratação, que nunca se sentaram com um departamento académico para dizer o que precisam, essas empresas nem têm direito de reclamar. O mercado de trabalho não se arranja por reclamar, mas também não se arranja por inação confortável.

Se queremos jovens prontos para o mercado, o mercado tem que lhes aparecer antes do diploma.

E quanto aos jovens: o país precisa de nós furiosos, não resignados. Precisa de quem bate à porta e de quem a arrombe, se necessário. A precariedade não é uma fatalidade. É uma escolha que pode ser revertida por outra. E as escolhas da maioria mudam quando há gente suficiente que recusa aceitar o que lhe oferecem como se fosse inevitável.

As empresas não são o Pai Natal. Os jovens não são pedintes. Está na hora de ambos perceberem que Portugal não tem falta de talento… tem falta de vergonha. A vergonha de ter um sistema que expulsa sistematicamente o que de melhor produz. E se é para faltar vergonha, que os jovens a percam para aparecer à mesa, de cadeira debaixo do braço, se for preciso.

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Autor: Jornal Trevim

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