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Hélder Bruno em entrevista ao Trevim: “É a partir da diversidade que se consegue construir algo maior”

‘Ether Sculptures’ é o título do novo álbum de Hélder Bruno. O músico lousanense tem estado a apresentar o novo disco e esteve à conversa com o Trevim. É a música à solta no éter, esculpindo emoções.

O que muda neste trabalho e o que se mantém em relação aos dois trabalhos anteriores?

Na generalidade, mantém-se o enquadramento estético. Contudo, procurei explorar a minha música (na estética que tenho vindo a publicar) através de uma abordagem mais abrangente, mais ampla e mais eclética.

É composto por oito temas em formato canção, que são ao mesmo tempo esculturas de som. Para quem ainda não ouviu as novas composições, o que é que isso significa?

Costumo dizer, e já escrevi sobre isso, que “se uma imagem são mil palavras, uma música são mil imagens”. Ao longo dos milénios a música tem sido um dos mistérios mais apaixonantes. De Pitágoras a Damásio, musicólogos e outros investigadores, têm estudado o fenómeno musical a partir de várias perspetivas. Como a música tem a capacidade de comunicar profundamente com o indivíduo e o seu íntimo, resultam daqui um conjunto de discursos e narrativas, nomeadamente imagens (que são também emanações discursivas). Bem… aqui já estou a abordar o álbum como cientista, mas é isto… Portanto, como a música não se vê, mas sente-se; como a música pode estimular a criação de imagens e imaginários no âmago do indivíduo recetor, pretendi que cada tema fosse a descrição de esculturas no éter, no volátil, no inefável. No interior (ou a partir do universo individual) de cada um.

Como é costume nos teus discos e concertos, chamaste alguns amigos.

Sim. Há uma componente particular que procurei concretizar e que consistiu em envolver artistas provenientes de universos estéticos e culturas musicais distintos. Convidei a Surma, que trouxe a pop eletrónica e a voz processada; o Iúri Oliveira, multi-percussionista que tem navegado pela música de raiz tradicional; o Jorri, multi-instrumentista, membro da banda “a Jigsaw”, que toca baixo elétrico neste meu álbum; e a Maria Martins (minha filha) que toca violoncelo num dos temas.

A mistura e a masterização contaram com a colaboração do Jorri e do Miguel Seco (produtor da Lousã) que tiveram a paciência de trabalhar comigo nesta fase. Eu tinha uma imagem sonora que desejava concretizar neste álbum. O Jorri (que é também produtor e empresário da Blue House) foi muito importante neste processo: da seleção dos músicos à produção final, passando pela captação (que teve também a colaboração do Filipe Fidalgo). O Miguel Seco depurou com minúcia e precisão o som do álbum até ao limite. Tudo e todos contribuíram para que o álbum correspondesse e até superasse o que escrevi e idealizei. Pretendi pragmatizar na música deste álbum uma perspetiva universalista em que a diferença, a individualidade, a diversidade, as diferentes culturas (musicais e não só), provassem que é precisamente a partir da diversidade que se consegue construir algo maior… se dialogarem, se se permitirem escutar, sentir e respeitar as diferenças entre si, lado a lado, com humildade e com um objetivo comum.

Quando te vês, nos anos 90, na pele do vocalista do grupo de rock Vonavêmor, imaginavas-te em 2025, com três discos num género mais erudito?

Não. De todo, mas nessa altura já a música erudita e até os compositores minimalistas me fascinavam. Já nessa altura eu queria ser investigador, musicólogo, etnomusicólogo. Por isso, quando entrei para o mestrado na FLUC (em 2001), deixei praticamente de tocar. Toquei bastante durante a licenciatura, mas o que mais me fascinava e motivava, aliás, o que mais me fascina e motiva ainda hoje, é a atividade académica e científica. E nestas atividades tenho também publicado e apresentado comunicações e conferências. O meu mais recente livro, que é a adaptação da minha tese de doutoramento, foi publicado há um ano. Estudei a relação entre música-identidades-emoções a partir de um indivíduo: o divulgador de jazz José Duarte.

Tens uma vida paralela à de músico. És especialista externo da Direção Geral das Artes, doutorado em etnomusicologia e investigador do Instituto de Etnomusicologia – centro de estudos em música e dança (INETmd) e no Centro de Estudos de Jazz da Universidade de Aveiro. És ainda docente na Escola Profissional Status. É de tudo isto que o compositor Hélder Bruno é feito?

Neste momento não estou no INETmd. Estou a redefinir a minha linha científica. No entanto, o INETmd é uma possibilidade, até porque é um centro de investigação com avaliação internacional de excelência. Sou professor adjunto convidado na Escola Superior de Educação do Politécnico de Coimbra e da escola profissional Status. Aliás, a Status foi um desafio. Foi mesmo sair da minha zona de conforto. Nunca tinha lecionado no ensino secundário. Tenho mais experiência no ensino superior, mas posso dizer que, mesmo com os conteúdos da disciplina que lecionei (História da Cultura das Artes), foi uma experiência muito positiva para mim. Encontrei alunas e alunos com elevada capacidade crítica, vontade de aprender, de refletir e conhecer mais profundamente o que abordávamos nas aulas. A Status tem também um projeto educativo muito humanista e individualizado. Gostei bastante. Mas a minha atividade académica e científica “obriga-me” a estar associado a uma instituição de ensino superior. A ESEC tem sido uma casa onde tenho encontrado a realização profissional e humana que sempre desejei, assim como o INETmd e o Centro de Estudos de Jazz da Universidade de Aveiro, para onde talvez regresse. Curiosamente, e apesar de haver sempre conexões e idiossincrasias, sinto que o Hélder Bruno compositor e pianista é outra entidade, uma entidade diferente do Hélder Bruno Martins, investigador científico, consultor, professor. Coexistem e certamente que se influenciam, mas, curiosamente, ou não, sinto como duas entidades distintas.

Os teus dois últimos álbuns têm títulos em inglês. Este é o reflexo de que a tua música não tem fronteiras?

Também. Julgo que sim. Não tenho como objetivo “ser famoso”, “ser artista mediático” ou “conquistar o mundo”. No entanto, os títulos em inglês podem posicionar-se nas redes digitais de forma global mais fácil de comunicar em qualquer parte do mundo. Aliás, temos verificado esse alcance (ainda que muito modesto e não sei se se deve aos títulos em inglês…) que se comprova por mensagens que recebemos vindas dos vários cantos do mundo. Também sabemos, através da distribuição digital, que a minha música é ouvida em vários países, do Japão à Argentina, da Nova Zelândia ao Canadá.

Este novo disco vai ser apresentado dentro e fora do país?

O disco vai ser apresentado onde o quiserem apresentar. Não tenho qualquer objetivo que não seja apresentar a minha música, partilhar a minha música, com as pessoas que se disponibilizarem e tiverem interesse em escutar. O primeiro álbum foi apresentado no estrangeiro. O segundo deu-me um prémio internacional. Este vai até onde tiver que ir. Sem pressão. Por outro lado, levo demasiado a sério esta atividade artística. Tenho contratos com empresas que vivem inteiramente do setor das artes e da cultura, especificamente da música: editoras, distribuidoras, agências, gestão/management, produtores. Há investimentos efetuados (financeiros e humanos). Não posso e não quero condescender em algumas situações só para “aparecer” aqui ou ali para alcançar a fama mediática.

Este teu último trabalho é assumidamente uma experiência sensorial capaz de transportar o ouvinte para um mundo paralelo. Assemelha-se a uma banda sonora. Escrever para cinema é algo que consideras fazer no futuro?

Sim. E já tive a minha música em várias produções televisivas e vídeos promocionais turísticos ou peças jornalísticas. Esse lado cinematográfico ou coreográfico está muito presente nos primeiros videoclipes, que estão a passar nos canais cabo do grupo Stingray TV. Tal como referi antes, o que vier por bem acolho e abraço com total empenho e dedicação. Eu componho bandas sonoras para coreografias, vídeos, filmes, instalações (que podem não existir). Mesmo que não seja ou não tenha sido uma encomenda. A visualização está muito presente no meu processo de composição. Tenho também um contrato com uma empresa especializada no setor do publishing: a Lusitanian Music Publishing. E, como disse, sem pressão. O que vier negoceia-se, pondera-se e, se houver condições e se nos interessar, concretiza-se.

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Autor: Carlos A. Sêco

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