Rita Serra
“Ó tu que não tens fé, serás salva pela fé dos outros”, disse-me uma vez um amigo. Ele tem razão. Perdi a fé. Todas as crenças que estruturaram a minha vida ruíram, uma a uma, e desde então tenho aprendido a viver nas ruínas. Há dias fui convidada para mais uma, em vias de ser edificada. Uma capela na Serra da Lousã, a capela de São Lourenço. Lá dentro o Santo de Ermesinde, que segura numa das mãos a grelha, supostamente onde foi martirizado, dizendo, com ironia, aos seus carrascos, “virem-me que ainda não estou bem-passado do outro lado”.
Uma capela singela. Lá dentro, chama-me a atenção um quadro do São Jorge e o Dragão, em que empatizo mais com o dragão, que olha São Jorge, irado pela derrota, sem se vergar. Enquanto passo os olhos pelo interior do espaço, reparo nos detalhes à minha volta. A senhora que coloca, com paucidade, as flores singelas na jarra; o amigo que me convidou, que conta a história do lugar, ele próprio um lugar de resistências múltiplas. Escuto a história de um brasileiro torna-viagem, que se vinculou com a capela, e fez da sua recuperação um propósito, quem sabe, se ele mesmo se recuperava assim. À entrada da capela, a bandeira da República Portuguesa. “É a Carbonaria! Foi um passo em frente! O caminho continua!”, diz o meu amigo, jocoso. Assinala a existência de dois carvalhos, plantados por outro homem. São dignos de nota, pois são os únicos. Com setenta anos, estão vivos e viçosos, e resistiram a todos os incêndios. A capela está rodeada de acácias e eucaliptos.
A escassos metros estão duas casas de banho vandalizadas, e uma fonte recentemente restaurada depois de um vil ataque, mas em que a água se faz ouvir às golfadas. E sente-se um cheiro no ar, um cheiro bom, de eucalipto, fresco, que se mistura com os musgos e a névoa que cobre o céu. Perto de uma toalha de renda, falamos sobre tudo e sobre nada, uma bela meia dúzia. Até que começam as festividades. Pedem-me para ler um texto, que escrevi, sobre os baldios, mas que, na verdade, é sobre a minha avó. As palavras comunicam-lhes algo, pois todos tiveram uma avó assim. A minha avó já não é a minha avó, é a avó de todos. Estranha forma de representação, a da comunhão de almas que acontece ao contar uma história, que é a própria. Depois fala outro, dos esforços para manter a serra livre. Juntam-se forças, expressam-se desejos. Eis que chega um padre leigo para dar a missa, para que não morra a capela. Então pedem-me para ler o texto do dia, porque ninguém tinha levado os óculos. “Bem, fiz a comunhão”, pensei. A última vez que li numa missa tinha 6 anos. Recordo o momento, porque me disseram que li bem, num tempo em que ler bem ainda impressionava. Decidi fazê-lo com convicção. Recordei o mantra “tudo o que fizeres, fá-lo bem”. Por momentos, esqueci as nossas diferenças, e atrevi-me a ver os outros como meus semelhantes. Por momentos, ignorei todos os significados das palavras com que teria de discordar, e concentrei-me apenas na sua musicalidade. Por momentos, li o texto sem me lembrar de nada, e guardei apenas uma palavra do evangelho: “justiça”, e o salmo: “a quem procede retamente farei ver a salvação de Deus, farei ver a salvação de Deus”. Dois ateus que me conhecem testemunharam o momento. Ambos me perdoaram tendo em conta o contexto. “Deixa lá, não sabes se não é por aqui que serás salva”, diz-me um. “Era etnograficamente correto”, diz-me outro, recordando o argumento de um descrente que recebeu os sacramentos no final da vida.
Quando chegou o momento de comungar, eu disse para a vizinha do lado: “aqui já não posso ir”. “Deixa lá eu também não”, respondeu-me. Foi então que vi o milagre: ninguém comungou. O padre leigo comeu todas as hóstias previamente consagradas, incluindo as poeiras que ficaram aderidas à caixa dourada. Então vi tudo. O republicanismo das serras, unido para salvar uma capela. Recordei a cena de abertura do livro Baudolino, de Umberto Eco, em que os poderes se encontram para criar situações ilegíveis a partir de uma perspetiva externa. A serra não é para iniciados. A serra não é para principiantes. A serra é composta de mil instantes, fotografias que nada dizem, retratos que se dissolvem e perduram, ecos que se materializam sem se saber de onde veio o som, a serra é uma ressonância, uma imensa ressonância.
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