Casimiro Simões
A praia da Senhora da Piedade perdeu este ano a bandeira azul que certificava a qualidade da sua água. Diferentes malfeitorias têm atingido a Serra da Lousã nos últimos anos.
Estamos falar, naturalmente, das nefastas ações humanas, sobretudo abusos e crimes ambientais diversos cometidos por privados.
Mas devemos também questionar as omissões dos poderes com responsabilidades para intervir, desde logo quanto a uma fiscalização dos atos dos particulares, incluindo empresas de fachada e inaceitável impunidade.
Esse lavar de mãos é flagrante ao nível das emissões líquidas ou gasosas poluentes, associadas, por exemplo, a uma evidente sobrecarga dos fluxos turísticos, da degradação de muros ao longo da EN 236 e de outras vias, da acumulação de lixo e da caça furtiva com abandono de animais mortos.
Falamos de omissão, para não dizer total deserção dos organismos com competência para subir a Serra e apanhar os infratores ainda com as mãos sujas dos crimes praticados.
Temos boas leis e departamentos do Estado, das autarquias e das forças de segurança, com experiência e qualificação suficientes para que a Serra da Lousã não continue entregue à bicharada.
Esta imensidão de xisto, floresta nativa e infestante, património material e imaterial, berço de uma cultura identitária e singular, tem sido entregue aos espertalhões.
E cada vez menos aos bichos que, a custo, ainda voam, rastejam, nadam ou correm há milhões de anos nos seus recantos, alguns integrados na Rede Natura 2000.
Quando a Câmara da Lousã liga a nova imagem de marca do concelho ao lema “ecos da Serra, caminhos de futuro”, o poeta Sanches da Gama (1864-1933), tantos anos depois, voltaria a cantar tão valioso património multimunicipal como “montanha tutelar” da sua e das nossas infâncias?
A Serra da Lousã, por alheamento do Estado e das câmaras, está à mercê dos figurões do “salve-se quem puder”, que passam anos – alguns – a congeminar os mais vis ataques a um rico património comunitário, que, por este andar, corre sério risco de desaparecer como tal.
Por estas e por outras, a água da ribeira de São João, para onde correm inúmeros pequenos afluentes do domínio público hídrico, não tem chegado em boas condições à Senhora da Piedade, segundo recentes análises efetuadas pela Associação Bandeira Azul da Europa.
Neste quadro, a praia fluvial, que constitui o mais emblemático cartão-de-visita da Lousã, perdeu este ano a bandeira azul. A diminuição dos caudais não justifica tudo.
A montante, nas encostas, tem havido cortes rasos de arvoredo e prosseguem movimentações de terras que poderão configurar crimes ambientais. Quem acode à Serra da Lousã?
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