Osvaldo Sousa

Da arte erudita à popular, do humor comum ao intelectual não existe nenhuma fronteira, sendo apenas criação de sucesso ou fracassada. Artista popular com humor é o brasileiro Zé Andrade que como percurso criativo passou pela imprensa, pela cenografia carnavalesca mas que tem como obra principal a escultura cerâmica caricatural.

Zé, o que conheces das origens humorísticas brasileiras? «Sabes, a nossa cultura indígena é muito lúdica, está sempre a brincar e o jogar (mentalmente e fisicamente) é algo muito sério para eles, porque importante. Curiosamente não me consigo lembrar de nenhum “puro” brasileiro que se tinha realçado nesta área. Os brasileiros indígenas que conheço são muito envergonhados, distantes. Têm sido maltratados pela sociedade, talvez a razão desse distanciamento e de serem muito reservados. A personalidade brasileira é portanto composta por três elementos: o branco / latino mais solene e enfático que humorista; O índio, um ser lúdico mas deprimido; o descendente negro de escravo, muito mais brincalhão que ri, canta, dança faz o carnaval da vida. O humor brasileiro é muito diversificado e cada estado tem o seu tipo de comicidade, ou seja o do Rio é diferente do de São Paulo, como do da Bahia, etc. Os estados mais especiais no humor são o do Piaui (que tem um grande Salão de Humor, mas São Paulo também tem o de Piracicaba – o mais antigo do Brasil, não esquecendo o de Pernambuco, o de Caratinga – Minas Gerais, o de Manaus…) e o estado do Ceará, onde nasceram grande humoristas do teatro do cinema como Chico Anísio, Renato Aragão… O que caracteriza o humor brasileiro? Essencialmente o sentimento de perda e superação».

O Carnaval é o que melhor define o humor brasileiro? «O Carnaval é muito importante no Brasil. Quando aqui cheguei ao Rio o Carnaval era diferente, era mais vivido, mais artesanal… O João Trinta, que vinha da Teatro Municipal deu-lhe uma nova alma, transformou-o na grande ópera da rua. Trabalhei com ele, com o Renato Laje, fiz muito trabalho (principalmente na escola Beija Flor)… Hoje é muito mais tecnológico, tem escultura mas perdeu encanto, os artistas passaram para o segundo plano… Mas o mais importante aqui é a presença negra, a sua alegria, o seu humor… A presença negra é fundamental e sagrada, são os «Velhos compositores», «As Velhas Baianas»… Hoje já não trabalho para os carnavais».

Tu és especialmente conhecido especialmente pelas «Pílulas de memória», essas pequenas esculturas caricaturais de personalidades da sociedade brasileira, mas também fazes essas caricaturas gigantes: «Faço, pois os próprios políticos me encomendam as máscaras deles (estilo gigantones), para com elas fazerem a campanha, enviando delegados com a sua máscara (a imagem como identificação das ideias políticas expressas) que viajam pelo país todo. São as máscaras que retratam a pessoa, as quais, quando chegam à rua, todo o mundo ri, como expressão de carinho, de afecto».

«Eu sou um criador de arte popular. Sou um artista intuitivo, utilizando a minha força criativa, os meus sentimentos. Crio aquilo que me toca, emociona, espanta. O artista é alguém que fica grávido do que está a fazer, nunca desligando, investiga, procura e cria. O importante é como eu vou resolver, como vou atravessar o rio, o oceano… até ficar satisfeito com o resultado final. Dessa forma surgiu mais de uma centena de personalidades caricaturadas, como Pilulas de Memória».

«Para se conhecer bem o que é o humor no brasil eu recomendo que vejam os filmes “Rindo à toa – Humor sem Limites” e “Tá Rindo de Quê?” realizados pelo trio Claudio Maciel, Álvaro Campos e Alê Braga».

Por: Osvaldo Macedo de Sousa

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