José Luís Santos

O táxi estaciona junto ao Hotel Syyahat, o alojamento mais barato da cidade. Na receção, um jovem encara-me com um olhar de quem tenta ignorar a minha presença.

            – Um quarto por favor – digo-lhe no inglês mais arcaico possível, pois ali a única língua estrangeira que se fala é o russo.

            – Está cheio! – indica-me, com aquele gesto de negação a fazer pendant. Estava cansado e sem dinheiro turquemeno. Precisava mesmo de ficar ali alojado em vez de andar perdido à procura de um plano B.

            – Mas eu preciso mesmo de um sítio para ficar, arranje-me uma cama por favor – suplicam-lhe os meus olhos carregados de desespero.

– Afinal temos um. Terceiro andar. Vá pelas escadas que o elevador está avariado – reconsiderou. Abro a porta com a placa 317 e entro numa divisão exígua, com as paredes rachadas. A carpete cinza, invadida por uma tonalidade escura de uma encorpada sujidade de gordura amassada com cinza de cigarro era a fonte do ambientador que conferia aquele quarto um ar pútrido. A cama nem lençóis tinha, e a estrutura de madeira estava corroída, como se um caruncho esfomeado aí tivesse passado as férias. Mas tinha sorte por estar no Verão, já que metade do sistema de aquecimento tinha sido arrancado. E havia uma segunda cama, pelo que aquele espaço seria partilhado com alguém. Mas era o que havia, e pelo qual tive de pagar 23 dólares.

– Pelo menos em princípio aqui não haverá ratos – pensei para comigo, recordando-me de quando, na Índia, partilhei um quarto com uma ratazana bem rechonchuda. Saio porta fora desconsolado e faço-me à estrada, na direção do bazar russo, para destrocar dólares por manats, onde a taxa cobrada no mercado negro é muitíssimo mais favorável do que a que me dariam num banco. Agora, tinha de arranjar um cartão SIM com dados de internet na única loja autorizada pelo Estado. Com 30 dólares e uma fotocópia do passaporte, reconectei-me ao mundo na MTS, mas já com três VPNs instalados para contornar a censura desta ditadura.

O dia foi duro, e já se sente o avolumar do cansaço psicológico. Continuava incomunicável, e a tarde não tinha corrido como tencionava. Regresso, transtornado, ao Syyahat aguentando 38º de temperatura, já sob noite escura. Aí, ao confrontar-me novamente com o funcionário, descontrolei-me.

– 23 dólares por isto?! Eu pago 23 dólares por isto?! – gritei-lhe em tom quase ameaçador, já sem capacidade para medir a minha própria inconsequência. Ele julgou que eu era louco, ou apenas teve dó de mim, e disse-me que afinal havia outro quarto. Quando abro a porta, passo do inferno para o céu: tinha uma suite só para mim, também com sala de estar, cozinha e casa de banho.

No dia seguinte, conheceria um casal de ingleses que tinha pedido um quarto no Yyldyz, o melhor hotel da cidade, e lhe disseram também que não pois estava cheio, mas, após insistência, lá lhe arranjaram algo. Na manhã seguinte, na sala de refeições, eram as únicas pessoas a tomar o pequeno almoço.

Há coisas que não são para perceber.

Por: José Luís Santos

Carregar mais artigos relacionados
Carregar mais artigos por admin
Carregar mais artigos em Crónica

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Veja também

Mulher que vieste de longe – Ana Cristina Santos

Ana Cristina Santos …